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​Europa reage ao Brasil, populismos e Itália

02 nov, 2018 - 13:40

Na edição desta semana, analisamos a reação de Bruxelas à eleição de Bolsonaro no Brasil, falamos com um dos mentores da reunião de partidos populistas em Bruxelas e recuperamos excertos da entrevista de Dombrovskis à Euranet.
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A semana começou com a reacção da Comissão Europeia à eleição de Jair Bolsonaro no Brasil. A porta-voz da Comissão disse esperar o fortalecimento das relações com o novo Governo, lembrando que o Brasil é um parceiro importante nas negociações com o Mercosul. Certo é que, no Brasil, vários analistas mostram preocupação com o futuro do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia. Sobretudo depois de, no domingo à noite, Paulo Guedes, o futuro ministro brasileiro das Finanças e Economia ter dito que “a prioridade não é o Mercosul”.

Preocupações também do lado de cá

Não é apenas do outro lado do Atlântico que chegam estas inquietações. Os movimentos e partidos populistas na Europa estão a crescer e vão ganhando terreno em termos eleitorais. Na Bélgica, a poucos quilómetros das instituições europeias em Bruxelas, está instalado o clube de líderes populistas. O “Movimento” quer estabelecer pontes entre estes partidos. Steve Bannon participa e apoia com dinheiro este movimento populista que pretende favorecer a criação de um bloco anti-UE e anti-imigração no próximo Parlamento Europeu. O correspondente da Renascença, Vasco Gandra, falou com o advogado belga Mischael Modrikamen, que se aliou a Steve Bannon, arquitecto da campanha eleitoral de Donald Trump. O belga afirma a importância que o ex-mentor de Trump exerce neste movimento populista: “Ele traz a sua experiência e o seu prestígio enquanto ex-director de campanha de Trump – em parte, foi ele que o fez eleger -, e depois como seu principal ex-conselheiro. Também traz capitais importantes. E portanto é esta união, esta aliança, que constitui o Movimento”, afirma.

O objectivo passa por construir pontes entre populistas, eurocépticos e nacionalistas. Os temas são os clássicos da extrema-direita: contra a União Europeia, a favor de mais soberania para os Estados, e controlo das fronteiras contra o que consideram a imigração de massas. O clube populista pretende influenciar as próximas eleições europeias e favorecer a ascensão de um grupo forte no Parlamento de Estrasburgo, contra aqueles que são favoráveis ao projecto europeu. Apesar da crise migratória estar para trás consideram que a imigração vai ser o principal tema das europeias: “A questão da imigração é muito concreta. E os que são a favor da soberania são também favoráveis a decidir quem entra e quem sai do seu território. E, como em geral, seguem o desejo dos seus povos, querem também fechar a porta à imigração de massas, nomeadamente económica, que vem de África por barco”.

O Movimento mantém contactos com partidos populistas e de extrema-direita em 20 países na Europa e também no resto do mundo. Já terá havido conversas com próximos de Jair Bolsonaro mas ainda não houve contactos com Portugal. Steve Bannon e Modrikamen estiveram em Itália em Setembro e obtiveram o apoio de Matteo Salvini, líder da nacionalista Liga e ministro do Interior. Para o movimento populista, a Itália é um exemplo a seguir e um teste para as suas ideias.

Itália: Dombrovskis explica

Tem sido tema recorrente nas última semanas: o Orçamento italiano e o chumbo da Comissão às contas do Governo de Roma. Esta semana o vice-presidente da Comissão Europeia, Valdis Dombrovskis deu uma entrevista à Euranet. O comissário responsável pelo euro e pela estabilidade financeira diz que, no caso de Itália, a questão não é apenas o incumprimento das regras europeias, mas essencialmente uma preocupação com o desenvolvimento económico na Itália: “Se discutirmos a situação na Itália, certamente é motivo de preocupação porque os planos orçamentais da Itália se desviam substancialmente de seus compromissos fiscais. E não é apenas uma questão de regras fiscais da União Europeia, é também uma questão sobre a própria economia da Itália. Porque, neste momento, a Itália está a pagar taxas de juros muito mais altas sobre sua dívida pública, está a começar a reflectir-se também na economia real, nos custos de financiamento das empresas, dos particulares. Afinal de contas, esse tipo de abordagem pode ser contraproducente e retardar o desenvolvimento económico na Itália ”.

Apesar destes sinais, nesta entrevista à Euranet, o vice-presidente da Comissão está confiante. Não antevê nenhuma crise e garante que a zona euro está forte: “Eu não dramatizaria as coisas agora. De qualquer forma, pedimos agora à Itália que elabore um projeto de plano orçamental revisto, e ainda há quase três semanas para que a Itália o prepare. Tomámos uma série de medidas para fortalecer a resiliência da zona do euro, para assegurar que podemos lidar com situações difíceis, que podemos lidar com um efeito colateral noutros países e evitar algum tipo de efeito dominó, como vimos em 2010 -2011. Então, achamos que temos uma união económica e monetária forte e resiliente, capaz de lidar com choques económicos. De qualquer forma, para já é importante que a Itália corrija seu curso, em primeiro lugar, em prol da própria economia italiana”, explica Dombrovskis.

Valdis Dombrovskis diz ainda que é preciso enviar um sinal forte à Itália de que é preciso cumprir as regras porque partilhamos uma moeda única. O procedimento por défice excessivo é, por isso, uma hipótese que está em cima da mesa: “Um elemento que estamos a analisar é o procedimento de défice excessivo relacionado com a dívida. Em anos anteriores, fizemos essa avaliação para a Itália - os chamados relatórios do artigo 126. A nossa conclusão não foi colocar a Itália em procedimento por défice excessivo relacionado com a dívida, porque a Itália estava, em geral, conforme com o "braço preventivo" do pacto de estabilidade e crescimento. Se este não for o caso, talvez precisemos voltar à questão do procedimento por défice excessivo”.


Este conteúdo é feito no âmbito da parceria Renascença/Euranet Plus – Rede Europeia de Rádios. Veja todos os conteúdos Renascença/Euranet Plus

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