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​Desafio digital leva meios de comunicação da Igreja a apostar em parcerias

11 out, 2018 - 17:07 • Ângela Roque

Experiência diferenciada de vários rádios cristãs da Europa, e dos média do Vaticano, está a ser partilhada num encontro que decorre em Lisboa.
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O 25º encontro anual da Conferência Europeia das Rádios Cristãs (CERC) está a debater os desafios que a transformação digital trouxe ao setor. Desafios e mudanças. O segundo dia de trabalhos começou com uma apresentação das quatro rádios que compõem o Grupo Renascença Multimédia (RR, RFM, Mega Hits e Rádio Sim), e a forma como cada uma se adaptou e está a aproveitar as vantagens que a aposta digital lhes trouxe. Mas, os participantes vão também ficar a conhecer as mudanças que o Vaticano já iniciou nos seus vários órgãos de comunicação.

“É um grande programa. Estamos numa transformação total desde 2015 quando, por decisão do Papa Francisco, foi criada uma nova organização para os média que unifica todas as entidades, como o L’Osservatore Romano ou a Rádio Vaticano”, explicou à Renascença e à agência Ecclesia Jean-Charles Putzolu, um dos responsáveis pelo novo Dicastério para a Comunicação da Santa Sé.

São ao todo nove as instituições que fazem parte desse novo organismo, mas segundo Putzolu “a parte mais visível do iceberg é o site Vatican News, onde se comunica em 39 línguas, e talvez sejam mais no futuro”. As mudanças já implementadas obrigaram também a uma grande adaptação, sobretudo por parte dos jornalistas. “Tiveram de mudar a forma como trabalhavam. Eram sobretudo de rádio, agora são jornalistas multimédia. Têm tido formação, por exemplo em vídeo, e para aprenderem a escrever melhor na internet. Estamos numa fase de consolidação”.

Para este responsável, o grande desafio que hoje se coloca à Igreja nesta área é, de facto, a adaptação aos meios digitais, para “chegar às pessoas” onde elas estão e onde comunicam.

Outro será os vários órgãos de comunicação perceberem as vantagens de colaborarem mais entre si.

“Acho que a chave hoje é partilhar conteúdos e estabelecer parcerias”, explicou ainda Jean-Charles Putzolu, para quem esta nova forma de trabalhar cria novas oportunidades, porque com os novos meios que hoje existem ”é possível usar os nossos conteúdos e os dos outros numa nova plataforma, por exemplo, onde consigamos chegar às pessoas onde elas estão, levar-lhes as mensagens da Igreja”.

Putzolu reconhece que “o Vaticano às vezes pode parecer uma instituição distante”, e para “fazer as pessoas sentirem-se próximas” é preciso “estar presente nas plataformas onde essas pessoas estão”.

Considera, por isso, muito importante o encontro da CERC, que está a debater os desafios que a transformação digital trouxe às rádios cristãs, e aos media em geral, os do Vaticano também.

“É importante, porque é uma forma de nos encontrarmos todos, de nos conhecermos uns aos outros, trocar experiências, falar, dialogar. Porque essa é essência da Igreja, estar em diálogo com o mundo, no caso com outras rádios. E nesse sentido podemos criar novas parcerias, novas plataformas, novos media e formas de falar às pessoas, para passar a nossa mensagem”.

Boas práticas em Espanha e França

Entre as rádios que estão a participar no encontro de Lisboa está a COPE (Cadena de Ondas Populares Españolas). Católica, tem entre os principais acionistas a Conferência Episcopal de Espanha. À semelhança do que acontece em Portugal com o Grupo Renascença Multimédia, o grupo COPE tem quatro rádios, que chegam diariamente a 6 milhões e meio de ouvintes.

Henrique Campo, responsável pela informação da COPE, falou à Renascença e à Ecclesia do que tem mudado na sua rádio, a segunda mais ouvida no país vizinho. “Muita gente ouve-nos na rádio, mas muitos outros já o fazem no telemóvel. Se queremos continuar a ter ouvintes temos de nos adaptar, estar onde eles estão, por isso privilegiamos o digital. Há dois meses que temos uma nova página na internet, e há um mês que criámos uma nova aplicação móvel”, explicou. Outra aposta passará pela criação de uma redação única. “A COPE é uma rádio como a Renascença, generalista, mas temos mais três rádios musicais, o site cope.es, e um canal de televisão, que é dos bispos. O objetivo é trabalharmos todos juntos, contribuindo com conteúdos para a rádio, a televisão e o site”.

“Há quem veja a internet como um perigo, mas para nós só nos trouxe oportunidades”, sublinhou ainda, lembrando que hoje o que se faz na rádio já tem visibilidade de outras formas, o que só é bom. “Podemos pôr imagens, comentar no Facebook, podemos falar com os ouvintes, enviar pelo Twitter e Instagram. A internet ajuda-nos a manter a nossa essência, os valores católicos, e a chegarmos melhor a mais gente”.

Henrique Campo considera, por isso, muito oportuno este encontro da CERC, porque “a rádio está a mudar, como o mundo está a mudar. Há rádios comunitárias, rádios que têm poucos profissionais e muitos voluntários. Há rádios comerciais e outras não, rádios em que a Igreja põe dinheiro, outras não. Mas, todas somos rádios cristãs, católicas, todas queremos chegar às pessoas com a mesma mensagem. Por isso, esta é uma oportunidade magnifica para ensinar o que fazemos, partilhar experiências e aprender uns com os outros”.

Philippe Lansal é outro dos participantes no encontro. Representa a Rádio Chrétienne Francophone (RCF), de França. “Somos uma rede de rádios, 65 na França e 3 na Bélgica”. Juntaram-se nos anos 90, hoje emitem “20 horas de programação nacional comum, e 4 horas de programação local”, com uma audiência bastante razoável: “temos 3 milhões de ouvintes, global, e 600 mil cada dia”, explicou. E não chegam só a quem tem fé: “metade dos que nos ouvem, mais de um milhão e meio de pessoas, não tem nenhuma ligação à Igreja, nunca vai à Igreja. Mais de 20% não têm religião”, avançou ainda aquele responsável à Renascença e à Ecclesia.

Conhecer quem os ouve revelou-se fundamental para implementarem algumas mudanças. Philippe Lansal fala numa “revolução cultural”, pensada para corresponder ao que os ouvintes esperam e desejam. “A nossa marca é a felicidade, e na RCF é esse o nosso projeto. Pensámos partilhar a felicidade”. Mas, com o digital presente no dia a dia das pessoas, isso obrigou a outra “revolução” no modo de fazer rádio, com a necessária adaptação aos novos meios ao dispôr.

“Mudou o modo de trabalhar, e tudo muda muito rápido”, afirmou Lansal, sublinhando que uma das apostas da RCF tem sido a parceria com outros média. “Trabalhar com as revistas, os jornais, a televisão cristã, estamos a fazer muitas mais alianças com outros”. Outra vertente tem sido a formação dos profissionais da rádio. “Temos de acompanhar os jornalistas nesta mudança, por isso temos promovido formação em vídeo, formação como escrever na internet”.

Philippe Lansal explicou ainda que RCF é uma rádio generalista, que se diferencia das restantes rádios francesas em vários aspetos. “Somos uma rádio pequena, em comparação com as grandes rádios em França que são rádios públicas ou privadas. Temos uma particularidade, não somos comerciais, somos associações, e o nosso financiamento não é a publicidade, é um pouco a Igreja, um pouco o Estado francês, mas a maioria são os ouvintes. Temos mais de 60 mil pessoas que dão dinheiro para financiar a RCF como se fosse uma ONG”, explicou Philippe Lansal, concluindo que tudo isto faz com que sintam que “somos rádios que são das pessoas”.

O encontro anual da Conferência Europeia das Rádios Cristãs, de que a Renascença é este ano anfitriã, termina esta sexta-feira com a atribuição de um novo prémio que vai distinguir a melhor iniciativa de rádio em 2018, entre as várias que constituem a CERC.

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