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Aznavour: O cantor que carregava “o peso do sofrimento infinito”

01 out, 2018 - 14:57

Para muitos, era um cantor francês, mas, para os arménios, era um dos dele e representou esperança em tempos de desespero.
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“Caíram naquele ano/desapareceram da terra/sem saber que causa/ou que leis tinham ofendido”.

Assim começa a música “They Fell”, de Charles Aznavour, sobre o genocídio dos arménios às mãos de militares turcos em 1915.

Mas nem todos caíram. Alguns sobreviveram. Segundo o artista, foi esse o caso do seu pai Misha e da sua mãe Knar, oriundos das comunidades arménias da Geórgia e da Turquia, respetivamente. A Arménia é dos países do mundo com a maior diáspora, havendo cerca de três milhões no próprio país e outros cinco milhões fora dele.

Numa entrevista concedida em março de 2018 à Rádio Pública da Arménia, Charles Aznavour, cujo nome verdadeiro era Shahnour Vaghinag Aznavourian, alonga-se sobre a sua ligação à sua terra ancestral e o papel que o genocídio desempenha na alma dos arménios.

“Enquanto descendente de sobreviventes do genocídio e, mais, enquanto figura pública, tenho uma responsabilidade particular. Carrego o peso do seu sofrimento infinito. Cabe-nos a nós tomarmos posição pelo seu respeito e dignidade, garantindo assim que eles não sejam mortos segunda vez.”

Para Aznavour, esta responsabilidade não dizia apenas respeito à memória histórica dos arménios. “Os que foram aniquilados em 1915, 1941 e 1994 foram arménios, judeus e tutsis. Não morreram por aquilo que tinham feito, mas por quem eram. Era eu, mas eras tu também. Porque em Der Zor, Auschwitz e Kigali, o alvo era a humanidade.”

E este não é, sequer, um problema do passado, afirma: “A barbárie que não é erradicada, surge com uma nova máscara. Isso pode ser visto no que se passa com as minorias no Médio Oriente hoje”. O problema do Médio Oriente é sentido de forma particular pelos arménios também, uma vez que países como o Líbano e a Síria têm, ou tinham, importantes comunidades arménias.

“They Fell”, escrito em 1975, tornou-se um hino ao genocídio arménio, mas o próprio admite que foi só em 1988 que tomou verdadeira consciência do papel que podia desempenhar.

“Antes da independência, fui lá apenas uma vez, em 1964, para dar um concerto. Foi o sismo devastador de 1988 que alertou a minha consciência. No espaço de 24 horas decidi lançar uma organização: Aznavour pela Arménia, que para muitos arménios, naqueles tempos difíceis, encarnou a esperança para o futuro”, diz.

O Governo da República da Arménia, que surgiu dos escombros da União Soviética, rapidamente percebeu que tinha em Aznavour um importante aliado com alcance mundial e tratou de tirar disso o maior proveito.

“A Arménia confiou-me um cargo que fortaleceria e formalizaria o meu compromisso. Primeiro, fui nomeado embaixador da Arménia junto da Unesco e depois, em 2009, o Presidente Sargsyan, que me concedeu nacionalidade arménia, propôs-me representar a Arménia na Suíça e junto das Nações Unidas, em Genebra. Primeiro hesitei, sabendo que não seria fácil, mas depois pensei que aquilo que é importante para a Arménia deve ser importante para todos nós”, disse, na mesma entrevista à Rádio Pública da Arménia.

Charles Aznavour morreu na segunda-feira, 1 de outubro, aos 94 anos e o Governo arménio reagiu rapidamente. Numa mensagem enviada à Renascença, o Ministério dos Negócios Estrangeirs avisa que esta noite decorrerá uma vigília em memória do cantor, "herói nacional da República da Arménia", na praça Charles Aznavour, em Erevan e o ministro dos Negócios Estrangeiros Zohrab Mnatsakanyan publicou uma homenagem na sua conta pessoal do Twitter, apelidando o cantor de "um dos tesouros do mundo, uma lenda, maior que o mundo. O filho dos povos da Arménia e de França, Charles Aznavour, tocou os corações de gerações inteiras, em todos os cantos do mundo. Charles é eterno", escreve.

[Notícia atualizada às 15h52]

Morreu Aznavour, o Frank Sinatra francês
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