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Papa desafia católicos chineses a ultrapassar diferenças e trabalhar com o Governo

26 set, 2018 - 11:00 • Filipe d'Avillez

A longa mensagem que o Papa Francisco dirigiu esta quarta-feira à Igreja na China não refere os detalhes do acordo alcançado com Pequim, mas diz que este é um mero instrumento e que precisa da colaboração de todos para dar frutos.
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O Papa Francisco pede aos católicos chineses que ultrapassem as divisões resultantes de anos de perseguição às mãos do Governo e que juntem esforços para criar uma Igreja unida naquele país.

Numa longa mensagem divulgada esta quarta-feira, o Papa começa por reconhecer que muitos católicos da China se sentem confusos ou até traídos pelo histórico acordo alcançado entre Roma e Pequim para a normalização das nomeações dos bispos chineses.

O Papa não deixa ainda de valorizar os sofrimentos que muitos tiveram de suportar por fidelidade a Roma. “Estou ciente de que semelhante tropel de opiniões e considerações possa ter criado não pouca confusão, suscitando sentimentos contrapostos em muitos corações. Nalguns, surgem dúvidas e perplexidade; outros vivem a sensação de ter sido como que abandonados pela Santa Sé e, ao mesmo tempo, colocam-se a questão pungente do valor dos sofrimentos que enfrentaram para viver na fidelidade ao Sucessor de Pedro.”

A Igreja na China é perseguida desde que começou o regime comunista naquele país. Pequim criou a Associação Patriótica Católica, para gerir os destinos da Igreja, e insistiu em nomear os seus próprios bispos, algo que Roma nunca aceitou. Os católicos que recusaram a supervisão estatal viram-se obrigados a viver a sua fé na clandestinidade e muitos foram presos, perseguidos ou mortos por essa razão. Já os bispos que foram nomeados pelo Governo e consagrados sem autorização do Papa foram automaticamente excomungados.

Ao longo dos últimos anos tem havido um esforço maior para evitar estas situações, com bispos nomeados pelo Governo a pedir discretamente autorização ao Papa, que em várias ocasiões a concedeu. Mas permaneciam sete casos de bispos excomungados. Com o acordo alcançado no passado fim-de-semana estas sanções foram levantadas, como explica o Papa nesta mensagem.

“Depois de ter examinado atentamente cada uma das situações pessoais e escutado diversos pareceres, refleti e rezei muito procurando o verdadeiro bem da Igreja na China. Por fim, diante do Senhor e com serenidade de juízo, em continuidade com a orientação dos meus antecessores imediatos, decidi conceder a reconciliação aos restantes sete bispos ‘oficiais’ ordenados sem Mandato Pontifício e, tendo removido todas as relativas sanções canónicas, readmiti-los na plena comunhão eclesial.”

“Ao mesmo tempo, peço-lhes para expressarem, por meio de gestos concretos e visíveis, a reencontrada unidade com a Sé Apostólica e com as Igrejas espalhadas pelo mundo, e para, não obstante as dificuldades, se manterem fiéis à mesma”, escreve Francisco.

Detalhes do acordo desconhecidos

A carta do Papa Francisco não refere qualquer detalhe do acordo, mas no avião papal, no regresso da viagem aos Bálticos, Francisco já tinha deixado claro que a palavra final na nomeação dos bispos é dele. "Não são eles que os nomeiam. É um diálogo. Mas é o Papa que os nomeia. Que isso fique claro", afirmou.

Nesse sentido, numa das passagens da sua carta dirigida mais especificamente aos católicos chineses, o Papa pede ajuda na escolha de pastores, uma vez que o acordo, por mais útil que seja, não passa de um instrumento. “Neste contexto, a Santa Sé pretende realizar cabalmente a parte que lhe compete, mas também a vós – bispos, sacerdotes, pessoas consagradas e fiéis leigos – cabe um papel importante: procurar, juntos, bons candidatos que sejam capazes de assumir na Igreja o delicado e importante serviço episcopal. Na realidade, não se trata de nomear funcionários para a gestão das questões religiosas, mas ter verdadeiros Pastores segundo o coração de Jesus, comprometidos a trabalhar generosamente ao serviço do povo de Deus.”

Por fim, o Papa pede aos católicos chineses que se esforcem por ultrapassar divisões que tenham sobrado dos tempos da Igreja dividida e que sejam “artífices da reconciliação”, insistindo no dever que têm de serem também bons cidadãos. “No plano civil e político, os católicos chineses sejam bons cidadãos, amem plenamente a pátria e sirvam o seu país com empenho e honestidade, segundo as suas capacidades. No plano ético, estejam conscientes de que muitos cidadãos esperam deles uma medida mais elevada no serviço ao bem comum e ao desenvolvimento harmonioso da sociedade inteira.”

Ao Estado, Francisco pede respeito pela liberdade dos cristãos. “É de importância fundamental que, também a nível local, as relações entre os responsáveis das comunidades eclesiais e as autoridades civis sejam cada vez mais profícuas, através dum diálogo franco e de uma escuta sem preconceitos que permita superar atitudes recíprocas de hostilidade. Precisamos de aprender um novo estilo de colaboração simples e diária entre as autoridades locais e as autoridades eclesiásticas – bispos, sacerdotes, anciãos das comunidades – que garanta a realização ordenada das atividades pastorais, harmonizando as legítimas expectativas dos fiéis e as decisões que competem às Autoridades.”

A mensagem do Papa inclui um pedido à Igreja Universal para que acompanhe esta situação com oração e termina confiando a Nossa Senhora “o caminho dos crentes na nobre terra da China”.

Não existem números oficiais para os católicos na China, mas estima-se que existam vários milhões, para além de outros cristãos de igrejas evangélicas.

[Notícia corrigida às 13h01]

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