Crónicas da América
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Universidade de Brown lança biografia e outros escritos de Fernando Pessoa em inglês

21 mai, 2018 - 10:30 • José Alberto Lemos, em Nova Iorque

Um espólio encontrado há três anos em Durban, na África do Sul, é agora publicado por uma das mais prestigiadas universidades americanas. Um contributo importante para reavaliar a obra pessoana em inglês. Que foi, afinal, a primeira língua literária de Pessoa.
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Desembarcou em Lisboa há exatamente 50 anos vindo da África do Sul. Era inglês e tinha acabado de obter uma bolsa da Gulbenkian para investigar a obra de Fernando Pessoa. Mas não era um jovem, ao contrário do que possa pensar-se.

Quando chegou à capital portuguesa, Hubert Jennings já tinha 72 anos e tinha ficado de tal modo fascinado com a obra de Pessoa que decidiu aprender português para a estudar e entender em profundidade. É com esse objetivo que se muda de Durban, onde deu aulas no liceu que Pessoa tinha frequentado, para Lisboa, aqui permanecendo cerca de ano e meio.

Dessa investigação deveria ter resultado um livro que teve data de publicação prevista para 1974. Mas quis o destino que o editor interessado na obra de Jennings morresse no ano da Revolução dos Cravos. Tudo ficou adiado e o livro, que teria por título “The poet with many faces”, nunca chegou a ver a luz do dia.

Dez anos mais tarde, em 1984, Jennings publica um livro sobre Pessoa intitulado “Os dois exílios: Fernando Pessoa na África do Sul” (com uma versão inglesa “Pessoa in Durban” que sai na África do Sul em 1986) e que é ainda hoje uma obra de referência para quem estuda o poeta dos heterónimos.

Hubert Jennings já estava reformado quando a Durban High School lhe pediu para escrever a história da escola e foi nessa altura que se deparou com os escritos de Pessoa, que ali foi aluno no princípio do século. Os passos dos dois homens nunca se cruzaram. Quando Jennings começa a dar aulas na Durban High School, em 1923, já Pessoa tinha partido para Lisboa há uns anos (1905).

Mas, em 1968, decide estudar com profundidade a estadia sul-africana do poeta e cria laços com a sua família ainda viva em Lisboa. Uma meia-irmã e um meio-irmão de Pessoa ajudam-no e encorajam-no nessa tarefa. Dessa colaboração nasce a primeira biografia em inglês do poeta, várias traduções dos seus poemas e um conjunto de cartas trocadas entre Jennings e os familiares que permaneceram desconhecidas até há poucos anos.

Só em 2015 é que um filho de Hubert, Christopher Jennings, descobre numa garagem de Durban uma caixa com cerca de dois mil documentos, que incluem todo o espólio do pai e que causou alvoroço nos meios pessoanos. Haveria inéditos de Pessoa?, era a pergunta que todos faziam.

Aparentemente não havia. Todos os poemas ali referenciados e outros escritos pessoanos eram transcrições que Jennings tinha feito a partir do acervo na posse da família e existiam já na Biblioteca Nacional portuguesa. Mas as cartas que Jennings recebeu dos meio-irmãos do poeta tinham pormenores da sua vida lisboeta pouco conhecidos ou mesmo desconhecidos.

E é assim que o espólio do professor inglês se torna objeto de estudo aturado dos especialistas, nomeadamente do núcleo pessoano da Universidade de Brown, nos Estados Unidos. O Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros publica em em 2016, na sua revista “Pessoa Plural”, boa parte dos textos do espólio de Jennings, acompanhados de ensaios de vários investigadores sobre a sua importância para o entendimento da obra pessoana.

E essa importância não pode ser desvalorizada. Antes de mais, porque Jennings deu um contributo fundamental para a divulgação de Pessoa no mundo, ao traduzir para inglês mais de 50 dos seus poemas. Depois, porque foi o autor da primeira biografia de Pessoa escrita em inglês. E, por fim, porque o seu espólio contribuiu para uma reavaliação da obra pessoana em inglês.

O brasileiro Carlos Pittella é um dos investigadores que dedicou os últimos dois anos a estudar esse espólio na Universidade de Brown, uma das mais prestigiadas dos Estados Unidos. E não tem dúvidas sobre a relevância de Jennings na releitura que se faz hoje da poesia de Pessoa em inglês.

“Durante muitos anos, a poesia em inglês foi negligenciada, porque se achava que o inglês dele era muito shakespeariano. Havia algum preconceito em relação a isso. Hoje a leitura que se faz é bem diferente”, explicou à Renascença. Sublinha a formação inglesa do poeta e recorda que “a primeira língua literária do Pessoa é o inglês”.

Na verdade, Pessoa criou pseudónimos ingleses para alguns dos seus escritos, antecipando de certa forma os heterónimos portugueses que mais tarde cultivaria abundantemente.

Ensaios de investigadores ingleses sublinharam a relevância destes escritos e entre a publicação desse número da revista e os dias de hoje, a Universidade de Brown decidiu lançar um livro com muitos dos textos do espólio de Jennings, que entretanto o seu filho, Christopher, decidiu doar ao Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros.

Uma doação acompanhada por uma verba generosa à universidade para que futuros bolseiros e outros investigadores se possam dedicar aos estudos pessoanos sem que isso pese no orçamento da Brown. E que possa também financiar eventuais publicações relacionadas com o poeta dos heterónimos.

O livro, lançado nesta segunda-feira na Biblioteca Pública de Providence, a cidade que acolhe a Universidade de Brown, vem finalmente repor uma omissão histórica com 44 anos. “The poet with many faces” contém, nas suas 324 páginas, a primeira biografia ilustrada de Pessoa em inglês e mais de 50 poemas traduzidos por Jennings.

Mas, simultaneamente, o Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros da Brown decidiu publicar também em livro muito do material que foi sendo escrito a propósito do espólio encontrado em Durban, no qual se incluem vários ensaios, inúmeros fac-símile de manuscritos pessoanos, e até alguns textos do poeta com conteúdo político — como um sobre a Guerra dos Boers, que teve como palco a África do Sul enquanto Pessoa lá vivia. São mais 360 páginas sob o título “Inside the mask”, onde se encontra vasto material de reflexão sobre a obra pessoana.

É a primeira grande edição destas obras de Pessoa em inglês, mas Carlos Pittella gostaria também de ver o livro editado em Portugal. “Porque não? Era ótimo que algum editor se interessasse e o fizesse chegar ao grande público”. Aliás, como nos Estados Unidos, onde uma casa editora poderia fazê-lo ultrapassar o âmbito universitário.

[notícia atualizada às 20h39]

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