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Sabe que planta é carnuda, crocante e com sabor a mar?

01 mar, 2018 - 11:09 • Júlio Almeida

Chegou a ser “descurada e maltratada” pelos homens que faziam sal, mas agora a salicórnia existente nas plantações da Ria de Aveiro já não chega para os pedidos do mercado.

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Alavancada pela procura em alta para uso culinário, a produção certificada e 100% biológica de salicórnia, deverá sofrer, a curto prazo, um “crescendo” significativo na zona de Aveiro.

Usada para substituir o sal, a planta já conhece grande expressão nacional, graças ao trabalho lançado há cerca de três anos por um grupo de jovens empreendedores locais.

“O consumo está na moda, sobretudo pelo interesse da alimentação saudável, mas entendemos que é uma tendência que veio para ficar. Só não podemos apressar as coisas, dar um passo maior que a perna, porque existem especificidades, temos de saber respeitar o que a natureza nos dá, acompanhar bem e melhorar a capacidade produtiva”, afirma à Renascença Eduardo Rodrigues, da empresa Horta da Ria, que tem entre mãos um ambicioso plano de expansão para multiplicar por quatro os atuais cinco hectares de cultivo localizados numa ilha da Ria de Aveiro.

Crescer sim, mas de forma sustentável e sem grandes riscos. O aumento da produção de 'salicornia ramosissima', espécie halófita autótone conhecida vulgarmente como salicórnia, tem vindo a ser amadurecido para dar resposta às crescentes encomendas, incluindo do estrangeiro.

Utilizada até nas ementas dos navegadores dos Descobrimentos de acordo com alguns registos, a salicórnia, apesar da intensidade do sabor a sal, tem muito menos cloreto de sódio (considerado “um veneno” para a saúde), sendo também famosa pelas propriedades anti-oxidantes e anti-inflamatórias, entre outras caraterísticas medicinais.

Instalada na incubadora de Ílhavo, a Horta da Ria não só cultiva a planta como trabalha na sua transformação e comercialização, contando com as gamas salicórnia fresca/verde, em pó (o chamado “sal verde”) e em conserva. Também vende de sementes, para quem quiser ter a salicórnia em casa num vaso.

As plantações são habitualmente feitas entre os meses de março (sementeira) a agosto (colheita).

De maltratada a ingrediente “gourmet”

O crescente interesse pela cozinha “gourmet” deu uma grande ajuda na promoção da planta “carnuda, crocante e de sabor a mar” que começou a circular em força nos restaurantes.

Chefs conceituados já foram a Aveiro conhecer o trabalho dos jovens agricultores e deixar algumas recomendações. “Juntou-se a isso a importância de fazer uma alimentação saudável, eliminando o excesso sal, para levar a população a descobrir a salicórnia. A nossa esperança é que mais pessoas o façam como substituto do sal, diferente e como se fosse um legume”, refere Eduardo Rodrigues à Renascença.

Os países mais consumidores ficam no Centro e Norte da Europa. Israel e Chile são grandes produtores. Portugal pode acompanhar, graças às boas condições oferecidas nos terrenos banhados pela Ria de Aveiro, especialmente as encontradas em antigas marinhas de sal desativadas por falta de procura do mercado.

Estas condições motivaram os promotores da empresa Horta da Ria a instalar ali aquela que poderá tornar-se a maior área de plantação do país. A empresa surgiu após os promotores, vindos das áreas da engenharia, da matemática e arquitetura, frequentarem uma formação de empreendedorismo.

“A salicórnia era algo que eu próprio desconhecida. Decidimos fazer um plano de negócios em função desse produto e achámos que há mais produtos que podem ser interessantes, pelo sabor, pelos constituintes, para fazer a diferença na área alimentar, mas também na saúde e cosmética”, descreve Eduardo Rodrigues, que tem contado com apoio de investigadores da Universidade de Aveiro.

Tudo isto contrasta com o que se fazia no passado. A salicórnia era “descurada e maltratada” pelos marnotos (os homens que fazem sal), que costumavam arrancá-la dos tabuleiros das marinhas, porque pensavam que estragava o sal, retirava qualidades.

O desafio agora é outro: assegurar uma produção especial, diferenciada, verdadeiramente biológica, obriga a deixar a natureza atuar e saber acompanhar o que ela dá.

A salicórnia recomenda-se fresca na salada, dando-lhe sabor a sal e com textura diferente sem introduzir sal. Em pó ou verde, compõe bem omeletes salteadas e condiz com peixe ou, especialmente, camarão. Há quem coma simplesmente fresca.

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