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“Vivemos sempre em alerta, sobretudo aos domingos”, diz bispo paquistanês

29 jan, 2018 - 17:19 • Filipe d'Avillez

O arcebispo de Lahore elogia a fundação Ajuda à Igreja que Sofre. “Não são como outras ONG, ajudam-nos sem pôr em causa a nossa dignidade, não querem controlar tudo”.

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A vida dos cristãos no Paquistão não é fácil. São incontáveis os ataques individuais e frequentes os atentados maiores. O último foi contra uma igreja metodista em Dezembro do ano passado.

O arcebispo de Lahore, Sebastian Shaw, sabe isto melhor que ninguém. No dia 27 de Março de 2016, Domingo de Páscoa, uma bomba matou 75 dos seus fiéis e feriu mais de 340 pessoas.

Actualmente, acredita o arcebispo, a situação está ligeiramente melhor, mas não se pode baixar a guarda. “Ao longo dos últimos dois anos a situação tem estado mais controlada, mas estamos sempre em alerta. Sobretudo aos domingos, estamos sempre em alerta”.”

“Uma semana depois do último ataque era Natal e tivemos uma reunião com o Governo e as agências de informação. Disseram-nos para aumentar os muros, colocar arame farpado e instalar câmaras de vigilância com visão nocturna. Não tivemos escolha, e foi caro, mas conseguimos cumprir”, explica.

É de histórias destas que é composto o livro “A Cruz Escondida”, de Paulo Aido e editado pela fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS). São 70 casos, contados por outras tantas pessoas, incluindo o arcebispo, que se encontra em Portugal para lançar a obra, esta segunda-feira à tarde, em Benfica.

Sebastian Shaw acredita que estas histórias servirão para confirmar a fé de alguns e restaurar a de outros. “Isto é obra de Deus. Acho que muitas pessoas o vão ler e sentir-se inspiradas. Compreenderão a missão de Deus para elas. Há pessoas que se afastaram de Deus, por sua livre vontade, depois de lerem este livro, penso que muitas voltarão.”

O arcebispo não se poupa nos elogios à Ajuda à Igreja que Sofre e a todos os seus benfeitores, que contribuem mesmo sem conhecer as pessoas que estão no terreno. “A AIS ajuda-nos ao imprimir bíblias em urdu, catecismos e outros livros, bem como na construção de igrejas e escolas”.

“Aprecio imenso a beleza do facto de os benfeitores não terem visto os beneficiários mas acreditam e ajudam à mesma. E ajudam as pessoas a andar pelo seu próprio pé, não tentam controlar as suas mentes, como fazem outras ONG, como o Fundo Monetário Internacional, que tenta controlar tudo.”

Desta forma, diz Sebastian Shaw, “a AIS está a ajudar as pessoas no Paquistão e em muitos outros países. Muitos jovens conseguem andar pelo seu próprio pé, sair da pobreza, sair da miséria, e agora vivem uma vida dignificada. É isso que Jesus queria”, considera.

Luz escondida, ou protegida?

Os cristãos no Paquistão são uma pequena minoria, pouco mais de 2% numa população de mais de 200 milhões. Apesar de a fé ser firme e bem vivida, diz o arcebispo, o medo constante e os ataques acabam por desanimar.

“Eu digo às pessoas que é importante nunca ter medo, e nunca retaliar. Temos de seguir o caminho de Jesus e sermos pacificadores. Digo que nascemos no Paquistão e isso significa que Deus tem uma missão especial para nós. Somos chamados a ser a luz do mundo”, acredita.

Mas Jesus diz, nos Evangelhos, que uma luz não se acende para esconder debaixo da mesa. Não teme o arcebispo que os muros altos, arame farpado e câmaras de vigilância passem a mensagem errada à sociedade paquistanesa?

“É uma boa metáfora”, diz o arcebispo, rindo, “mas nós não estamos a meter a luz debaixo da mesa, estamos a protegê-la do vento, para que não se apague”.

“Também temos dúvidas”, admite, “mas quando vemos as vidas em causa… No Natal e na passagem de ano temos 4000 pessoas na catedral. Não podemos tomar riscos. Confiamos em Deus, mas ao mesmo tempo conhecemos a situação no terreno e temos de fazer a nossa parte”, diz Sebastian Shaw.

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