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Uma foca chamada “Amália” para ajudar quem sofre de demência

20 dez, 2017 - 06:47 • Ângela Roque

Já é usado com êxito noutros países, mas em Portugal será o primeiro robot terapêutico para doentes com demência. Criada pelo japonês Takanori Shibata, é conhecido por “Paro”, mas em Portugal vai chamar-se “Amália”.

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É uma foca bebé e simboliza a mais recente aposta da Casa de Saúde da Idanha, das irmãs hospitaleiras, para melhorar a qualidade de vida e promover o bem-estar das pessoas com demência.

“Amália”, como vai chamar-se (apesar de o seu nome original ser “Paro”), parece um boneco de peluche, mas é, na realidade, um robot terapêutico.

“Este robot está validado e tem resultados comprovados cientificamente noutros países mundo. Em Portugal, seremos a primeira unidade a ter este sistema de roboterapia para trabalhar com os nossos doentes com demência”, diz à Renascença Ana Antunes, psicomotricista naquele estabelecimento das irmãs hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus, que se dedicam aos cuidados na área da saúde mental.

Ana trabalha na Unidade de Gerontopsiquiatria e Reabilitação Cognitiva, criada na Casa de Saúde da Idanha em 2005 especificamente para estes doentes. Com capacidade para acolher 26 pessoas, funciona em regime rotativo de curto internamento.

“Ao final de três meses, se a pessoa estiver clinicamente estável terá de sair e dar lugar a quem estiver em lista de espera”, explica a especialista.

Têm vagas “para controlo sintomático, ou seja, para os doentes que estão com sintomas por controlar e precisam de ajuda clínica”, e vagas para o alívio do cuidador, “para quando este está exausto, precisa de fazer alguma coisa e não consegue assegurar os cuidados ao familiar doente”.

O trabalho é feito “ao nível da estimulação e da reabilitação cognitiva” de quem sofre de demência e é por isso que não vêem a hora de ter mais esta ajuda na terapia.

“Este robot surge aqui para promover a qualidade de vida destas pessoas, potenciar o seu bem-estar. Ele actua ao nível das áreas cognitivas, também das áreas sociais emocionais, afectivas, e serve essencialmente para trabalharmos competências juntamente com o técnico”, explica Ana Antunes.

“Ou seja, o robot não é uma intervenção terapêutica, é sim um instrumento que nos permite chegar a determinadas áreas que de outra forma não conseguiríamos chegar” e não será para utilizar de forma autónoma.

“Nunca deixaremos o robot e o utente sozinhos”, garante. Mas “vai ajudar muito, muito. Nós inclusivamente mostrámos imagens aos nossos doentes que estão internados e o feedback deles, só pelas imagens, foi maravilhoso. Foram inclusivamente eles que decidiram que o robot se chamaria ‘Amália’, em homenagem à nossa fadista”, conta ainda.

Uma foca com inteligência artificial

O robot simula uma foca que expressa emoções, emite sons reais e reage ao toque, à luz e ao som. Tem temperatura corporal e pesa 2,5 kg. Como tem inteligência artificial, vai responder ao nome que lhe for atribuído.

“Vai direccionar o olhar quando o chamarem pelo nome, vai afagar no nosso peito, abrir e fechar os olhos, abanar a cabeça e a barbatana. Se falarmos muito alto ou o nosso toque for brusco, a foca também se vai retrair”, descreve a especialista em Gerontopsiquiatria e Reabilitação Cognitiva.

Esta forma de interagir é fundamental para estes doentes, adianta, porque “com o avançar da síndrome demencial, as pessoas vão dando cada vez menos importância à linguagem verbal e ficam-se pela linguagem corporal, os sinais que percepcionam. E é isto que a foca nos dá”.

Ser uma foca e não outro animal também tem uma explicação, dada pelo próprio criador – o engenheiro japonês Takanori Shibata. “Ele explica que mais facilmente encontramos pessoas que tenham tido experiências menos positivas associadas a um cão ou um gato, que poderiam evocar situações de medo, desconforto ou stress, do que a uma foca. Se calhar, ninguém teve contacto com uma foca que lhe pudesse transmitir sentimentos negativos”.

Para adquirir este robot terapêutico a Casa de Saúde da Idanha lançou uma campanha de “crowdfunding” ou financiamento colaborativo.

“O custo total são 6.688 euros, no entanto o que precisamos de angariar são 4.869”, explica Andreia Fonseca, assistente social. A campanha está disponível na internet e pode ser consultada “na plataforma de ‘crowdfunding’, em ppl.com.pt”.

“Quando as pessoas acedem a esta plataforma, basta pesquisarem pelo nome Amália, que é o nome do nosso robot, clicar para contribuir e escolher um montante que querem contribuir”, adianta.

E quem não tem acesso à internet? “Pode sempre contactar-nos através do 961883511 e podemos, em conjunto com a plataforma, gerar uma referência de multibanco”.

A campanha vai decorrer até 26 de Janeiro de 2018.

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  • TUGA
    20 dez, 2017 Lisboa 10:20
    Boa notícia!! Muita politicada e muito fanáticos vão ser ajudados.

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