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Mia Couto e José Eduardo Agualusa, o livro de uma amizade

11 jul, 2015 • Maria João Costa

São amigos, escritores, partilham a mesma língua e o mesmo continente mãe. Mia Couto e Agualusa encontraram-se no "Ensaio Geral", da Renascença.

Mia Couto e José Eduardo Agualusa, o livro de uma amizade

Nasceram no mesmo continente mas em dois paises que olham dois oceanos diferentes. A separá-los uma imensa África. José Eduardo Agualusa é angolano, Mia Couto moçambicano. Em comum, além de escritores têm uma amizade.

A Renascença juntou-os para o programa "Ensaio Geral", emitido a partir de Cascais no âmbito do Festival Internacional de Cultura, promovido pela Editora Leya e a autarquia local.

Sobre a amizade que une estes dois autores, Mia Couto explicou que é uma "amizade construida como se tivesse nascido na infância". José Eduardo Agualusa prefere antes falar de um "reencontro" e explica ter "a sensação de que sempre conheceu" Mia Couto.

Sentados numa mesa redonda, na qual se improvisou um estúdio de rádio, os dois escritores africanos falaram de livros mas também de política.

José Eduardo Agualusa questionou a razão pela qual o Governo português continua a apoiar o regime angolano. Segundo o autor de "Barroco Tropical", os novos emigrantes portugueses em Angola "vivem completamente à parte do tecido social angolano" e "são muito conservadores" e resistentes à mudança". É neste contexto que o escritor diz que acha "errado do ponto de vista estratégico e político que o Governo português e os dirigentes portugueses insistam em não apoiar e em apoiar o regime". De acordo com o autor, sob o argumento de que é preciso "proteger os interesses da comunidade portuguesa", o Governo português está implicitamente a proteger "o regime totalitário e a corrupção" em Angola.

O autor angolano, que acaba de lançar em Portugal "O Livro dos Camaleões", um livro de contos, aborda também as recentes detenções de jovens em Angola que contestam o regime de José Eduardo dos Santos. Segundo Agualusa, esta "repressão absurda" está contudo a gerar "um movimento de esperança" que segundo  o escritor está a ser muito rápida.

No "Ensaio Geral", Mia Couto referiu-se também à situação política em Moçambique. Numa altura em que passam 40 anos sobre a independência, o escritor e poeta descreve o que diz ser uma "voz de violência e de chantagem de um regresso a um tempo de guerra" que ainda permanece. Segundo Mia Couto há ainda sinais de "alarme" que não deixam os moçambicanos "tranquilos".

Questionado sobre os novos emigrantes portugueses em Moçambique, o autor explica que há duas atitudes diferentes. Por um lado, Mia Couto identifica "a gente que vem com uma atitude nova que não vem ao reencontro de um sentimento de saudade", mas por outro o autor que está a escrever uma triologia sobre  Gungunhana explica que há "também misturado algumas coisas que vêm reavivar um recentimento".

Política à parte, os dois escritores amigos falaram um do outro. Mia Couto identificou Agualusa como "a voz mais importante do continente africano", enquanto que Agualusa fala de Mia Couto como "alguém que já dispensa apresentações em Portugal e que é um fenómeno". Não se lembram quando começaram a ser escritores. Mia Couto confessa mesmo que ainda hoje tem uma certa vergonha de chegar a um sítio e se apresentar como escritor e conclui "ninguém é escritor, está-se nessa condição enquanto se mantém uma relação viva com a escrita".  Já Agualusa com uma carreira com dezenas de livros editados confessa que "só" começou "a sentir que era escritor com o último romance - A Rainha Ginga". Agora Agualusa está a escrever um novo romance, explica que é sobre os "sonhos" mas admite: "Não sei bem o que vai acontecer. Ando meio perdido".

Declarações para ouvir no programa Ensaio Geral em podcast.