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Maternidade de substituição

“Não é um problema religioso, é um problema ético”, considera padre Feytor Pinto

20 jan, 2012

O coordenador da Comissão Nacional da Pastoral da Saúde considera que as “barrigas de aluguer” são injustificáveis, apesar de tecnicamente possíveis.

A questão da maternidade de substituição, que hoje esteve no centro da discussão e votação parlamentar, é um problema ético e não religioso, considera monsenhor Vítor Feytor Pinto.

“Do meu ponto de vista no que se refere à maternidade de substituição sou frontalmente contra. Tecnicamente é possível mas eticamente levanta-me muitos problemas. Não é um problema religioso, é sobretudo um problema ético”, considera o Coordenador da Comissão Nacional da Pastoral da Saúde.

Apesar de a maternidade de substituição ser tecnicamente possível não é justificável, afirma, e dá exemplo dos problemas que pode trazer: “Para garantir a fecundidade de uma mulher que não tem útero pode-se, segundo alguns autores, utilizar uma irmã, uma mãe ou até de uma filha. Isto cria uma promiscuidade muito complicada no seio de uma família.”

Há ainda eventuais conflitos que teriam sempre a criança no centro: “A segunda ideia que me parece inaceitável dá-se entre a mãe uterina e a mãe do óvulo que podem entrar em conflito. Isto, em termos de manipulação da criança é inaceitável. Apesar de ser tecnicamente possível, pelas consequências que tem, dá-me ideia que é injustificável.”

Para monsenhor Feytor Pinto a solução para os casais que não podem ter filhos devia centrar-se na adopção e lembra que aí ainda há muito para fazer e melhorar neste aspecto: “A adopção é uma maneira muito bonita de casais, que por alguma razão não podem ter filhos, poderem ter uma família. Conheço famílias que adoptaram três ou quatro filhos e que são felicíssimas. Com a adopção pode-se fazer muito mais do que se está a fazer.”

A questão devia merecer a atenção dos deputados, considera: “Penso que valeria a pena alterar a lei da adopção, não com permissividade mas com uma certa abertura, com uma generosidade que neste momento não está a ser devidamente contemplada, porque o processo é tão complicado que a certa altura os próprios casais acabam por desistir.”

Independentemente de todas estas objecções, há ainda a questão do “timing” da discussão. Este não é um debate oportuno, considera o sacerdote, numa altura em que o país está em crise.

“O parlamento neste momento devia-se centrar nos grandes problemas da economia, da solidariedade, da assistência às famílias com problemas. Devia ser essa a prioridade absoluta. A introdução deste tema parece-me uma fuga aos problemas mais importantes que o país tem de enfrentar. Dentro dessa perspectiva penso que não é oportuno, neste momento, este debate”, afirmou à Renascença o padre Feytor Pinto.