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Papa. Mundo desenvolvido está em "dívida ecológica" para com pobres

18 jun, 2015 • Aura Miguel e Filipe d'Avillez

"O aquecimento causado pelo enorme consumo de alguns países ricos tem repercussões nos lugares mais pobres da Terra, especialmente em África", diz Francisco na primeira encíclica de um Papa dedicada ao ambiente. Papa critica privatização de recursos essenciais, como a água.

As diferenças entre os países desenvolvidos e os países em vias de desenvolvimento, que o Papa apresenta como uma diferença entre estados dos hemisférios Norte e Sul, são sublinhadas na encíclica "Laudato Si", que foi divulgada esta quinta-feira.

Francisco estabelece uma ligação entre as diferenças de riqueza e as questões ambientais. Se é verdade que os países pobres muitas vezes têm uma dívida financeira para com os países ricos, também o é que existe uma "dívida ecológica" no sentido inverso, defende.

"A desigualdade não afecta apenas os indivíduos mas países inteiros e obriga a pensar numa ética das relações internacionais. Com efeito, há uma verdadeira 'dívida ecológica', particularmente entre o Norte e o Sul, ligada a desequilíbrios comerciais com consequências no âmbito ecológico e com o uso desproporcionado dos recursos naturais efectuado historicamente por alguns países."

"As exportações de algumas matérias-primas para satisfazer os mercados no Norte industrializado produziram danos locais", escreve Francisco, acrescentando que "o aquecimento causado pelo enorme consumo de alguns países ricos tem repercussões nos lugares mais pobres da Terra, especialmente em África, onde o aumento da temperatura, juntamente com a seca, tem efeitos desastrosos no rendimento das cultivações".

"A isto acrescentam-se os danos causados pela exportação de resíduos sólidos e líquidos tóxicos para os países em vias de desenvolvimento e pela actividade poluente de empresas que fazem nos países menos desenvolvidos aquilo que não podem fazer nos países que lhes dão o capital", sublinha o Papa.

Alerta sobre mercado de emissões de gases
Perante a necessidade de combater os efeitos da poluição, Francisco é claro: Os países ricos têm maiores responsabilidades que os pobres neste aspecto. "Algumas das estratégias para a baixa emissão de gases poluentes apostam na internacionalização dos custos ambientais, com o perigo de impor aos países de menores recursos pesados compromissos de redução de emissões comparáveis aos dos países mais industrializados. A imposição destas medidas penaliza os países mais necessitados de desenvolvimento. Assim, acrescenta-se uma nova injustiça sob a capa do cuidado do meio ambiente. Como sempre, a corda quebra pelo ponto mais fraco."

Neste contexto, os planos de compra e venda de "créditos" de emissão de gases com efeito de estufa também merece um alerta de Francisco, uma vez que pode "pode levar a uma nova forma de especulação, que não ajudaria a reduzir a emissão global de gases poluentes".

"Este sistema parece ser uma solução rápida e fácil, com a aparência de um certo compromisso com o meio ambiente, mas que não implica de forma alguma uma mudança radical à altura das circunstâncias. Pelo contrário, pode tornar-se um diversivo que permite sustentar o consumo excessivo de alguns países e sectores", critica.

Contra a privatização da água
Francisco também fala nesta encíclica sobre a questão da privatização da água, que condena veementemente: "Na realidade, o acesso à água potável e segura é um direito humano essencial, fundamental e universal, porque determina a sobrevivência das pessoas e, portanto, é condição para o exercício dos outros direitos humanos. Este mundo tem uma grave dívida social para com os pobres que não têm acesso à água potável, porque isto é negar-lhes o direito à vida radicado na sua dignidade inalienável.”

Também se reservam críticas para os que criam espaços verdes dentro das cidades, mas só para alguns privilegiados.

"Nalguns lugares, rurais e urbanos, a privatização dos espaços tornou difícil o acesso dos cidadãos a áreas de especial beleza; noutros, criaram-se áreas residenciais 'ecológicas' postas à disposição só de poucos, procurando-se evitar que outros entrem a perturbar uma tranquilidade artificial. Muitas vezes encontra-se uma cidade bela e cheia de espaços verdes e bem cuidados nalgumas áreas 'seguras', mas não em áreas menos visíveis, onde vivem os descartados da sociedade."

Esta é a primeira encíclica escrita unicamente pelo Papa Francisco, uma vez que a primeira do seu pontificado, "Lumen Fidei", foi em parte herdada de Bento XVI. É também a primeira encíclica da história da Igreja dedicada unicamente a questões ecológicas e deve o seu nome a um cântico da autoria de São Francisco de Assis.