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Entrevista

Sollari Allegro: "Lei do aborto corresponde aos anseios da população"

23 jan, 2015 • João Carlos Malta

À vontade dos movimentos pró-vida de levar de novo a lei da IVG ao Parlamento, o presidente do Hospital Santo António responde que não há necessidade de mexer na lei. Mas critica quem quem usa o aborto como método contraceptivo.

Sollari Allegro: "Lei do aborto corresponde aos anseios da população"
Sollari Allegro: "Lei do aborto corresponde aos anseios da população"
Há casos nas mortes que ocorreram nas urgências dos hospitais nas últimas semanas que com uma nova retriagem podiam não ter acontecido. A convicção é do presidente do Hospital de Santo António, Sollari Allegro. Este médico fala ainda dos anos da troika e das suas consequências. Há quem não esteja a comprar medicamentos por falta de dinheiro.

Mais de mil médicos foram obrigados a emigrar desde 2011. Como é que isto é possível num país onde faltam profissionais?
É uma questão de mercado. Não são só os médicos que emigram. Os engenheiros também o fazem e os economistas também. Não encontrando emprego satisfatório em Portugal, eles vão procurar fora. Os ordenados são superiores, eles não têm grandes apegos e por isso vão trabalhar para o estrangeiro.

Não estamos a perder o investimento que fizemos numa formação que é particularmente onerosa?
Sim, e qual é a solução? Aumentar os salários. E pode? Se calhar, não pode.

Estamos de mãos e pés atados?
Estamos reféns. A situação económica tem de melhorar, o nível de vida tem de subir, os salários também e isso deixará de acontecer.

Os cursos de medicina são ainda os que têm as médias mais altas, a rondar os 18 valores. Não se valoriza em excesso o valor académico em detrimento de outros valores?
O que é importante é que as métricas sejam justas. É uma métrica que é igual para todos. Não é bem igual porque sabemos que há escolas que inflacionam as notas para os alunos chegarem a medicina. O problema é encontrar uma métrica que seja justa e equitativa.

Muitas vezes, faz-se a crítica de que os médicos estão académica e cientificamente bem apetrechados, mas lhes falta uma preparação mais humanista?
Acho que isso não é justo. As pessoas que vão para medicina de uma forma geral gostam do que estão a fazer e têm preocupações com o que estão a fazer. Têm preocupações sociais e humanistas. Agora é evidente que a medicina é muito tecnológica e a tendência de nos refugiarmos atrás de uma máquina é muito forte. É muito mais fácil fazer uma endoscopia e o doente estar calado, do que estar a explicar, a colher uma história. É muito mais fácil. Há muita tecnologia na actividade médica e reconheço que é algo que temos de combater activamente é desumanização do contacto com o doente.

É um problema que está a crescer?
Sim, porque a tecnologia está a crescer muito. A tendência de nos refugiarmos atrás das máquinas é muito grande. Nós temos consciência disso, mas é uma luta que vamos ter de manter.

Sollari Allegro
Sollari Allegro: Há pouco a fazer em relação à partida de médicos para o estrangeiro. Apenas esperar pela melhoria das condições de vida

Os movimentos pró-vida lançaram a iniciativa "Pelo Direito a Nascer". Do conhecimento que tem sobre a aplicação da lei da IVG é altura de a reformular ou está bem como está?
Penso que corresponde aos anseios da população. A única reserva são as pessoas que não fazem planeamento e que usam a interrupção voluntária da gravidez como forma terapêutica. Algumas pessoas que fazem interrupções múltiplas e que são um ponto vulnerável da lei.

Essa é uma arma de quem a crítica. São uma excepção ou uma regra?
Não é residual, mas não é muito numeroso. Não sei de cor as percentagens mas não é um grande problema.

Deveria haver um limite? Uma barreira?
Penso que é uma questão educacional mais do que estarmos a criar limites. Porque depois qual era o número? Um? Dois? Três? Cinco? Não faz sentido. É uma questão cívica e de educação.

Outra das críticas é de não pagarem taxas moderadoras. É razoável?
As pessoas isentas são 50% da população, portanto numa fase de implementação é exequível para diminuir o número de abortos clandestinos que era um dos grandes dramas. No futuro, depende do nível de vida da população.

Outro temor era o crescimento do número de abortos. Há uma escalada dos números desde que a lei foi aplicada?
Está estável. Não houve crescimento. Há é o tal grupo, relativamente marginal que faz disso o seu método de contracepção.