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"Tenho mais projectos do que tempo para os escrever", confessa Vargas Llosa

22 jul, 2014 • Maria João Costa

O Prémio Nobel da Literatura recebeu, em Lisboa, o doutoramento “honoris causa” pela Universidade Nova. Falou da sua literatura, do drama da página em branco e de corrupção.

"Tenho mais projectos do que tempo para os escrever", confessa Vargas Llosa

É com a frescura de quem acabou de escrever uma peça de teatro intitulada "Os Contos da Peste", que deverá levar à cena em Madrid no final do ano, que Mário Vargas Llosa admite nunca ter tido o drama da página em branco.

Aos 78 anos, o Prémio Nobel da Literatura confessa que lhe faltam anos de vida para escrever tudo o que quer. Sentado na Universidade Nova de Lisboa, onde recebeu o doutoramento “honoris causa”, Vargas Llosa disse que tem “muitos mais projectos para escrever do que tempo para os escrever”.

“O que me acontece é que cada livro me ocupa muito tempo. Depois os projectos acumulam-se. Tenho mais projectos que aquilo que vou viver, mesmo que viva muitos anos”, admitiu.

Depois de despir as vestes com as quais recebeu o título académico das mãos de Francisco Pinto Balsemão, Mário Vargas Llosa explicou que “às vezes os escritores sofrem um drama radical, ficam paralisados em frente à página em branco”. Mas confessou que isso nunca lhe aconteceu e que tem “sempre muitos projectos.”

Questionado pela Renascença sobre o poder da literatura, depois de no discurso perante a cátedra ter falado dos perigos da "ditadura da tecnologia", Vargas Llosa disse que “se um livro é um bom livro, se comove profundamente o leitor, se o leva a questionar certas convicções e verdades, naturalmente isto gera uma atitude crítica face à sociedade, ao mundo e à realidade”. “Creio que é uma consequência natural da boa literatura”, sublinhou.

O autor peruano, que já exerceu funções de jornalista e que foi também docente universitário, lembrou os tempos em que, em Londres, conheceu o escritor português José Cardoso Pires. Foi ele que lhe apresentou a obra poética de Fernando Pessoa, a que continua a regressar nas suas leituras.

Autor de mais de uma dezena de romances, Mário Vargas Llosa foi questionado pelos jornalistas sobre a sua experiência política quando foi candidato à Presidência do Peru em 1990. Desabafou, com um riso, que tem “uma má recordação”. Diz que aprendeu que “não é político”, mas que gosta de participar no debate político.

Vargas Llosa, que lançou no ano passado “O Herói Discreto”, continua a defender os direitos humanos e considera a corrupção como o maior mal dos tempos modernos. Aos jornalistas explicou que “hoje em dia há uma tolerância com a corrupção que é extremamente perigosa, porque cria uma falta de respeito para com as instituições e uma atitude um pouco cínica frente ao poder, aos governos e às eleições”. O escritor que já recebeu os Prémios Cervantes e Príncipe das Astúrias explicou que a corrupção “pode corromper as raízes da vida democrática”.

Natural de Arequipa, no Peru, Vargas Llosa obteve a nacionalidade espanhola em Março de 1993, sem nunca renunciar à peruana, destaca o Instituto Cervantes, e foi feito marquês pelo rei Juan Carlos de Espanha, em Fevereiro de 2011. 
 
"Conversa na catedral", "As guerras do fim do mundo", "A tia Júlia e o escrevedor", "A sociedade do espectáculo", "O sonho celta" são alguns dos títulos do escritor, editados em Portugal.