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Resignação do Papa

Bento XVI e o Ecumenismo

11 fev, 2013

O rumo do diálogo ecuménico sob Bento XVI viu a continuação do diálogo com ortodoxos, uma aproximação aos lefebvrianos e um afastamento brusco do anglicanismo.

Bento XVI e o Ecumenismo
Papa e Patriarca de Constantinopla
Os anos de pontificado de Bento XVI foram de intenso trabalho no campo ecuménico, embora na maior parte dos casos esse esforço tenha sido mais de aprofundamento doutrinal do que mediático.

No que diz respeito ao diálogo com as Igrejas Ortodoxas, a segunda maior comunhão cristã do mundo, realizou-se um trabalho sério e profundo de discussão sobre questões de doutrina central. Ao longo dos últimos anos uma comissão mista discutiu o papel do Papa na Igreja do primeiro milénio, quando não existia separação.

A nível de contactos pessoais, note-se que a eleição de Bento XVI veio melhorar as relações com a Igreja Ortodoxa da Rússia, que tinha uma relação mais difícil com o polaco João Paulo II. Mesmo assim, e apesar de se ter falado repetidamente na questão, Bento XVI não foi o primeiro Papa a visitar Moscovo.

Note-se que a excelente relação entre o Papa e o Patriarca de Constantinopla, Bartolomeu I, ‘primus inter pares’ dos líderes ortodoxos, manteve-se, com vários encontros entre os dois.

Anglicanos cada vez mais longe
Talvez o campo mais polémico a nível ecuménico, tenha sido do diálogo com a Igreja Anglicana.

Após décadas de trabalho de uma comissão mista, a ARCIC, a verdade é que a abertura da Igreja Anglicana à ordenação de mulheres e a crescente aceitação de práticas homossexuais, afastou irremediavelmente qualquer ilusão de reunificação.

A publicação em Novembro de 2009 da constituição apostólica ‘Anglicanorum Coetibus’ veio confirmar a descrença da Santa Sé no sucesso do diálogo ecuménico com aquela Igreja. O estabelecimento de um ordinariato pessoal (espécie de diocese sem limites geográficos, ao estilo da diocese para as Forças Armadas) para ex-anglicanos que queiram aderir ao Catolicismo, mantendo todavia vários aspectos da sua identidade litúrgica e espiritual, abriu uma porta às alas mais conservadoras da Igreja Anglicana que foi abraçada por vários milhares de pessoas em todo o mundo, incluindo um número significativo de padres e bispos.

Muitas pessoas envolvidas no diálogo com anglicanos ficaram chocadas ao saber que todo o processo do ‘Anglicanorum Coetibus’ foi preparado sem que a ARCIC, ou a hierarquia da Igreja Anglicana, tivessem sido avisadas.

Contudo, a sangria de conservadores favoráveis à Igreja Católica na Comunhão Anglicana deverá fazer aumentar a tendência liberal desta, afastando-a cada vez mais de Roma e acentuando o seu carácter protestante.

Lefebvrianos cada vez mais perto
Uma das acções mais polémicas do pontificado de Bento XVI surgiu durante a tentativa de reaproximação aos tradicionalistas da Sociedade de São Pio X (SSPX), conhecidos como lefebvrianos por causa do já falecido arcebispo Marcel Lefebvre que foi excomungado por ordenar, sem autorização de Roma, quatro bispos em 1988.

Após anos de diálogo o Vaticano fez uma proposta formal à SSPX para reintegrar a Igreja e normalizar o seu estatuto. Quando tudo indicava que a reunificação estava consumada, contudo, deu-se um revés e, nas palavras do próprio líder da sociedade, voltou tudo à estaca zero.

As negociações não foram dadas como terminadas, mas estão fragilizadas e agora tudo poderá depender da vontade e da visão do sucessor de Bento XVI.