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Islamitas em fuga de Tombuctu incendeiam manuscritos antigos

28 jan, 2013 • Redacção com Lusa

Académico português diz que há documentação importante sobre a história islâmica da Península Ibérica que poderá ter sido destruída pelos rebeldes islamitas em Tombuctu.

Islamitas em fuga de Tombuctu incendeiam manuscritos antigos
A destruição de manuscritos centenários pelos islamitas que dominavam Tombuctu, no Mali, é uma “perda irreparável” num património que inclui parte da história da Península Ibérica, disse à agência Lusa um especialista em história islâmica.

Fernando Branco Correia, professor de História do Mundo Islâmico na Universidade de Évora, disse à Agência Lusa que em Tombuctu havia “uma série de manuscritos importantíssimos, únicos, que tinham a ver com a história da Península Ibérica”.

Entre os manuscritos guardados naquela cidade estariam “obras únicas que têm a ver com a fase do Islão tolerante” e com a convivência de “cristãos (moçárabes), muçulmanos e judeus” durante a fase de administração islâmica dos territórios que hoje são Portugal e Espanha, conhecidos a partir do século VIII como Al-Andaluz.

Com a aproximação das forças francesas de Tombuctu, os islamitas que ocupavam a cidade fugiram e incendiaram um edifício “com manuscritos”, segundo uma fonte da segurança maliana, acrescentando tratar-se do Centro de Documentação Ahmed Baba, que, segundo o ministério da Cultura maliano, guardaria entre 60 mil a 100 mil manuscritos históricos.

O académico lamentou a “sanha persecutória” dos fundamentalistas que entendem que “se não é o Alcorão (principal texto sagrado do Islão), não presta”.

As duas dinastias que governaram a Península durante o domínio islâmico eram oriundas do Norte de África e estavam ligadas ao comércio trans-saariano, referiu Fernando Branco Correia.

“Com o desaparecimento dos territórios muçulmanos na Península Ibérica”, reduzidos no século XIII ao reino de Granada, “há intelectuais, juristas” e outras forças sociais que levam os livros das suas famílias para o Norte de África e alguns vão parar a Tombuctu.

Entre estes documentos encontrar-se-iam “livros de história, geografia, biografias”, estimou, ressalvando não conhecer a fundo o espólio do centro de documentação Ahmed Baba.

Esta cidade é historicamente “fundamental para quem vai para a África, uma base fundamental entre a África costeira mediterrânica e a África Negra”, frisou. “Como Heathrow, entre a América e a Europa”, ilustrou, aludindo ao principal aeroporto londrino.

Como entreposto comercial e de trocas culturais, Tombuctu foi lugar de “confluência, hibridismo e convivência salutar”, indicou.

Contactado pela Renascença, o professor de estudos árabes e islâmicos Adel Sidarus, também da Universidade de Évora, diz que a destruição causada pelos militantes islâmicos não data de agora e recorda que aquando da invasão inicial de Tombuctu já se tinham danificado vários santuários e mausoleus da tradição sufi: "Aquelas destruições não datam de hoje, como tal, porque os grupos islamitas fundamentalistas, salafistas, rigoristas e retrogradas, já tinham destruído vários edifícios religiosos em Tombuctu, incluindo bibliotecas importantes".

Adel Sidarus, que é natural do Egipto, confirma que a Península ibérica foi durante algum tempo um exemplo de convivência exemplar, mas que esse aspecto não deve ser exagerado: "É verdade que Tombuctu foi durante alguns séculos umfoco de alta cultura árabe, muçulmana sobretudo, mas também judia, muito mais que cristã. Se tivesse havido alguns manuscritos de Al-Andalus, quer dizer, da Península Ibérica no quadro da civilização islâmica, não quer dizer que estes textos em si indicassem uma convivência das três religiões de uma maneira absolutamente pacífica. Há mais de 40 anos trabalho neste domínio da história, da literatura, árabe-islâmica na Península Ibérica não vejo textos que apontem directamente para isto. O que vejo é, globalmente, uma convivência que foi, durante algum tempo, exemplar", explica.

[Notícia actualizada às 17h31]