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"Não são só os cristãos que rejeitam a Constituição do Egipto"

24 jan, 2013 • Filipe d’Avillez

Dois anos depois do começo dos protestos na Praça Tahrir, um padre egípcio explica que a situação dos cristãos permanece igual e que o medo não faz parte da fé dos coptas.  

"Não são só os cristãos que rejeitam a Constituição do Egipto"
"Não são só os cristãos que rejeitam a Constituição do Egipto"
Dois anos depois do começo dos protestos na Praça Tahrir, o padre Boulos, da Igreja Copta Ortodoxa, conta à Renascença que a situação no Egípto permanece difícil para os cristãos e explica que a nova Constituição é um dos factores que mais preocupa. Há aspectos do texto que são "contra os direitos humanos, alguns são contra o que esperávamos e o que merecemos", afirma.
Cumprem-se amanhã dois anos desde o começo dos protestos na Praça Tahrir, no Egipto, que levaram à queda do regime de Hosni Mubarak. Mas o novo Governo, com grande influência da Irmandade Islâmica, também é visto com grande desconfiança por parte de grandes sectores da população.

O padre Boulos, da Igreja Copta Ortodoxa, explica que a nova constituição é um dos factores que mais preocupa e que não são só os cristãos a desconfiar: “Em relação à Constituição, não são só os coptas. Há muita gente a recusar a Constituição. Há muitas coisas que não são apropriadas, que são contra o que os egípcios esperavam com a mudança. Alguns assuntos são contra os direitos humanos, alguns são contra o que esperávamos e o que merecemos. Nós merecemos melhor que esta Constituição. Ela não tem em conta os direitos das crianças, das mulheres ou das minorias.”

Os coptas, como são conhecidos os cristãos do Egipto, representam entre 10 a 15 milhões de pessoas, numa população total que ronda os 80 milhões. As queixas de discriminação e perseguição vêm de longe. Segundo o padre Boulos, ao contrário do que muitos esperavam, a revolução nada mudou.

“A situação dos cristãos quase não se alterou. Temos de ser honestos. Ainda hoje ouvimos falar em igrejas destruídas e queimadas. Há mulheres que são raptadas, mais tarde dizem-nos que elas se converteram ao Islão, que se casaram. É uma vergonha, é algo que fere o coração das famílias. Isto é uma dificuldade para a Igreja. De vez em quando prometem-nos que tudo vai ser controlado, que a lei vai vencer, que todos estamos sujeitos à lei. Mas mesmo depois das investigações, nada muda. Estamos num período de mudança, esperamos que no futuro, quando tudo acalmar, as coisas melhorem. Não só para cristãos mas para todos os egípcios.”

Apesar de tudo o sacerdote, que como a maior parte do clero não monástico é casado e pai de família, insiste que a Igreja pode conviver com um regime dominado pela Irmandade Islâmica: “A Irmandade Muçulmana não é uma ameaça para nós, conseguimos lidar com qualquer regime. O regime de Mubarak também era muçulmano, mas lidámos com ele. Lidamos com a Irmandade Muçulmana, com os fundamentalistas, com quem quer que seja. Queremos que o nosso país possa viver em paz e amor, em segurança. É isso que esperamos”.

À imagem do que se passa em quase todo o Médio Oriente onde existem comunidades cristãs perseguidas, também no Egipto a ideia de recorrer à violência para reivindicar os seus direitos não passa pela cabeça dos cristãos: “Esse não é o nosso caminho. Defendemo-nos com a oração e o jejum, pedindo a Jesus Cristo que interfira, e temos fé que Ele já interveio, tudo para o bem dos que amam Jesus Cristo.”

O padre Boulos, que esteve em Portugal para celebrar o Natal e a Epifania com a pequena comunidade de cristãos egípcios de Lisboa, segundo o calendário copta, que é próximo do juliano, é firme ao dizer que apesar de tudo os cristãos não se deixam preocupar pelo seu futuro.

“O termo ‘preocupado’ é contrário à nossa fé. Não estamos preocupados. Na Bíblia a expressão ‘Não te preocupes’, ou ‘Não tenhas medo’ surge 366 vezes. Por isso, por cada dia do ano há uma mensagem de Deus para cada um de nós: ‘Não tenhas medo’. Esta é a nossa fé. Não só para questões espirituais, mas em relação a tudo, não temos medo.”