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Igreja Católica é "tábua de salvação" para famílias no limiar da sobrevivência

26 dez, 2012 • Isabel Alves, da Agência Lusa

É sobretudo de bens essenciais que se tem feito o apoio prestado pelas paróquias e instituições da Igreja. Voluntários e donativos ajudam a cobrir as necessidades de quem mais sofre.

A crise, o desemprego e a pobreza obrigaram a Igreja Católica a recentrar-se na sua função de solidariedade social, cada vez mais criteriosa, devido aos crescentes pedidos de ajuda, de famílias inteiras, algumas no limite de sobrevivência. Da Igreja e dos padres já não se espera apenas consolo espiritual e orientação moral.

Para aqueles que deixaram de conseguir fazer face às despesas, crentes ou não crentes, as paróquias transformaram-se numa "tábua de salvação", muitas vezes a última esperança para quem já bateu a todas as portas onde podia encontrar auxílio.

O padre Mário Rui Pedras, pároco na igreja de S. Nicolau, em Lisboa, entende que a crise, apesar de ser "em si mesma uma coisa muito desagradável", pode também ser uma oportunidade para reflectir sobre a actual situação - e pode até mesmo ser "um convite à mudança e à conversão [religiosa]".

Mas é sobretudo de bens essenciais que se tem feito o apoio prestado pela paróquia de S. Nicolau. Com a ajuda de voluntários e dos donativos que chegam à igreja, a paróquia apoia neste momento 12 famílias carenciadas, todas as semanas, com alimentos frescos e não só. Outras 153 famílias são ajudadas todos os meses, com alimentos doados pelo Banco Alimentar e pela comunidade. Só no mês de Outubro esta pequena paróquia recolheu e distribuiu mais de 280 quilos de alimentos.

"A igreja é relativamente pobre e o que fazemos é o milagre da multiplicação: pedimos para dar, mas também encontramos apoios noutros sectores", diz o padre Mário Rui Pedras, em entrevista à Lusa.

O desemprego foi o principal responsável pela "nova realidade de pobreza" com que esta paróquia passou a lidar diariamente, tendo desde então tentado encaminhar as situações que ali chegam para "pequeninas bolsas" de emprego que conhecem.

"É um trabalho mínimo, pequenino, obviamente, mas que tem algumas respostas. Há outro tipo de respostas muito simples que vamos dando: estamos neste momento a apoiar dez famílias que vivem em situação de dificuldades, por não terem dinheiro para pagar a renda, a luz, a água, os livros dos filhos. Depois de fazermos a triagem, encontramos um conjunto de apoios de outras famílias, que vão ajudando a resolver estas situações", conta o padre.

Histórias como estas repetem-se por todo o país. O presidente da Cáritas Diocesana do Algarve, Carlos Oliveira, revela à Lusa que esta instituição, com sede em Faro, atendeu 1.033 famílias necessitadas entre Janeiro e Novembro, das quais 404 eram novas famílias em relação a 2011. No total, estas 1.033 famílias representam 2.665 pessoas, mais 1.087 do quem 2011. 

À Cáritas do Algarve chegam pedidos de ajuda para todo o tipo de despesas: rendas e prestações de casa, água, luz, gás, livros escolares, propinas. A alimentação, sendo uma das maiores carências, não é o apoio mais procurado. "As pessoas ficaram desempregadas, mas não é por causa disso que falta comida à mesa. Depois atrasam é o pagamento da renda de casa e das contas da água, luz e gás", explica Carlos Oliveira.

Por serem cada vez mais os pedidos de ajuda, é também cada vez mais difícil dar resposta a todos. A instituição tem sido obrigada a recorrer ao fundo diocesano social, constituído por donativos e por um vencimento anual de cada pároco da diocese. Carlos Oliveira revela que o fundo "está quase esgotado", o que obriga a analisar de forma "muito precisa" os pedidos que chegam para poder "dividir o mal pelas aldeias". Desde que foi criado, em Fevereiro de 2009, este fundo já distribuiu ajudas num valor superior a 91 mil euros.