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"A brutalidade do regime sírio não é mais defensável"

06 dez, 2012 • Filipe d’Avillez

Fadi Halisso, um jovem sírio que está a formar-se em Beirute para ser padre jesuíta, explica que "muitos dos cristãos que não conseguem apoiar mais o regime decidiram abandonar o país". Conta ainda que algumas pessoas do Governo ofereceram armas aos bispos para distribuir pelos membros da comunidade, algo que foi recusado tanto em Damasco como em Alepo.

O conflito na Síria já dura há um ano e oito meses e terá causado mais de 40 mil mortos, segundo algumas fontes. Com o agravar das atrocidades cometidas pelo regime, os cristãos - que no geral têm sido leais a Assad, com medo de ver o seu país seguir o caminho do Iraque - começam a dar sinais de mudança. Fadi Halisso, um jovem sírio que está a formar-se em Beirute para ser padre jesuíta, é um dos raros exemplos de cristãos que sempre foram contra o regime. A partir do Líbano, auxilia os seus conterrâneos refugiados e mantém contacto com a oposição. Em entrevista exclusiva à Renascença, Fadi explica que desertar sem sempre é uma opção para os soldados do regime, apesar de ser um desejo de alguns.


É fácil conseguir informação da Síria?
Não é fácil. Temos contactado algumas pessoas que têm ligações seguras à internet. Na semana passada houve um 'blackout' total na Síria e não conseguimos obter qualquer informação, porque mesmo aqueles que tinham ligações por satélite tiveram de os desligar por razões de segurança. É difícil, porque os activistas são perseguidos por forças de segurança, mas vamos conseguindo. O medo é que haja um “'lackout' de três dias ou mais e, nesse caso, não vamos conseguir saber o que se está a passar no país.

Vamos tendo acesso a informação veiculada pelo regime e pela oposição. É fiável?
Não é. Ambos recorrem a mentiras, mas a níveis diferentes. A oposição nem sempre diz a verdade sobre como correm as batalhas, nem mostra alguns actos desumanos dos seus soldados. Mas cada palavra que sai da boca do Governo é mentira. Eles bombardeiam cidades e até filas de pessoas à frente de padarias, mas nos 'media' nacionais não se ouve nada disto.

Temos a ideia de que os cristãos são na maioria favoráveis ao regime. Isso mantém-se?
Tem havido mudanças na posição dos cristãos em geral. Muitos deles estão envolvidos nos esforços de apoio e socorro em várias cidades. Muitos dos que não conseguem apoiar mais o regime decidiram abandonar o país. Não sei se ouviu falar de Jihad Makdissi, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que fugiu para Londres com a família. Por isso, sim, os cristãos, pelo menos muitos deles, estão a tomar posições diferentes nesta luta. A brutalidade do regime não é mais defensável. Muitos dos cristãos que vieram para Beirute, Cairo ou Jordânia estão activos no apoio aos seus compatriotas dentro da Síria.

Há casos de cristãos a lutar nas milícias pró-regime?
Tem-se falado disso, mas o que sei é que algumas pessoas do Governo ofereceram armas aos bispos, para distribuir entre os membros da comunidade, algo que foi recusado tanto em Damasco como em Alepo. Recusam-se a pegar em armas para se defenderem, mas abriram as suas instituições para as famílias deslocadas. Contudo, há casos de cristãos individuais que escolheram lutar com as milícias do Governo.

E cristãos a lutar juntamente com a oposição?
Temos notícia de alguns cristãos a lutar com a oposição, sobretudo em Damasco, mas não temos números concretos e na maioria são pessoas ligadas a movimentos de esquerda que nem gostam de ser descritos como cristãos - preferem dizer que são sírios, a lutar com os seus compatriotas contra um regime despótico.

Não há o perigo de a guerra se tornar um conflito étnico e religioso, como no Iraque?
Há sempre o medo de repetir na Síria o que aconteceu no Iraque, mas até agora não temos visto casos de vingança étnica. O que tememos é o facto de alguns países árabes do Golfo estarem a impor as suas agendas às brigadas que financiam e algumas dessas agendas não têm nada que ver com a causa Síria. É uma forma de fundamentalismo religioso que nada tem que ver com o Islão moderado da Síria.

Qual é a situação dos refugiados no Líbano?
No geral, a situação no Líbano é melhor do que na Jordânia, onde três bebés morreram de hipotermia na semana passada. No Líbano estão melhor, mas há muitas necessidades. Claro que isto não é nada comparado com o que se passa na Síria. Aqui, as pessoas têm abrigos, muitos na Síria estão a dormir na rua, a lutar contra o Inverno sem ajuda. Aqui no Líbano há muitas organizaçõe snão governamentais que nos estão a ajudar. O problema é que o número de refugiados triplicou no Verão.

Qual tem sido a atitude dos cristãos libaneses em relação aos cristãos sírios em dificuldades?
Isso depende. A maioria das pessoas que viveu a guerra do Líbano tem ressentimentos contra os sírios por causa do que sofreram com o exército sírio no Líbano. Por isso, não nos querem ajudar. Mas as gerações mais novas, que não viveram essa experiência, ajudam muito. Fazem donativos, ajudam a dar aulas às crianças. Não se pode generalizar. Há muita gente de boa vontade e há outros que não querem ter nada que ver com os sírios.

Com todas estas notícias de atrocidades, como é que se explica que o Governo mantenha um exército tão forte? Porque é que não tem havido mais deserções?
Muitos dos soldados vêm dos meios mais desfavorecidos na Síria. São pobres e, se desertarem, não têm para onde ir. A deserção não é uma escolha fácil, porque não estão só a colocar-se em perigo - estão a colocar toda a família em perigo. Os soldados rasos não sabem o que fazer: ou ficam e matam os seus parentes ou fogem e tornam-se alvos. Não é uma coisa fácil de lhes pedir.