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Bispos terminam Quinzena pela Liberdade com indirectas para Washington

05 jul, 2012 • Filipe d’Avillez

“Pertencemos a Deus, e só a Deus”, diz bispo americano, na mesma cidade onde foi assinada a declaração de independência e escrita a constituição.  

Chegou ontem ao fim a Quinzena pela Liberdade, uma iniciativa da Igreja Católica americana para chamar atenção para os atropelos à liberdade religiosa naquele país.

Decorreram várias conferências e encontros ao longo das duas semanas da iniciativa, que terminou ontem com uma missa em Filadélfia, presidida pelo Arcebispo local Charles Chaput.

Os bispos têm estado numa situação de conflito com a administração de Barack Obama por causa do plano de reforma do sistema de saúde. Segundo um mandato da presidência, várias instituições católicas, entre as quais hospitais, universidades e escolas, serão obrigadas a fornecer seguros de saúde aos seus funcionários que incluam serviços contraceptivos e abortivos. A Igreja considera que isto é um atentado à liberdade religiosa.

Durante a homilia de ontem não foi feita qualquer referência directa a esse assunto, mas todas as palavras do arcebispo rondaram a relação entre um cristão e o Estado, com base na passagem do Evangelho em que Jesus adverte os seus ouvintes para darem “a Deus o que é de Deus e a César o que é de César”.

Segundo Charles Chaput a moeda a que Jesus se referia trazia a imagem de César e por isso pertencia-lhe. Já o Ser Humano está marcado com a imagem de Deus. “Pertencemos a Deus e só a Deus”.

Por essa razão as liberdades fundamentais, entre as quais a liberdade religiosa, estão fora do alcance de César, isto é, do Estado: “A verdadeira liberdade não é algo que César possa dar ou retirar. Pode interferir com ela, mas quando o faz rouba à sua própria legitimidade”.

“O propósito da liberdade religiosa é criar um contexto para a verdadeira liberdade. A liberdade religiosa é uma liberdade fundamental. É necessária para o bem da sociedade”, explicou ainda o arcebispo.

Obama na mira dos bispos
Apesar de não ser referido directamente, o conflito com a administração estava claramente na mira das palavras de Chaput: “Caros amigos, a verdadeira liberdade não conhece outra ligação que não a Jesus Cristo. Não ama riquezas nem os apetites que elas tentam satisfazer. Essa liberdade pode afastar-se de qualquer coisa – riqueza, honra, fama, prazer. Até mesmo o poder. Não teme nem o Estado, nem a própria morte”.

De seguida, o arcebispo referiu quatro figuras que servem de modelo para a verdadeira liberdade: Miguel Pro, Madre Teresa, Maximiliano Kolbe e Dietrich Bonhoeffer. É interessante notar que à excepção de Madre Teresa, todos estes homens morreram às mãos de regimes onde a liberdade religiosa era inexistente.

A Quinzena pela Liberdade teve início no dia de São Tomás Moro, outro que perdeu a vida às mãos de um tirano por se recusar a renegar a fé, e terminou no dia 4 de Julho, dia da Independência nos EUA. Os bispos mostram assim que estão preparados para dar luta a Obama nesta questão, e nas demais que hão-de vir no futuro.

“Deus abençoou a nossa nação com recursos, poder, beleza e um Estado de Direito. Temos muito que agradecer. Mas são dons. Podem ser usados erradamente. Nos anos que virão enfrentaremos ameaças cada vez mais sérias à liberdade religiosa no nosso país”, advertiu.