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Monsenhor João Evangelista

Greves com motivações políticas "não são justas"

25 jun, 2012 • Ângela Roque

Fundador da Associação Cristã de Empresários e Gestores critica abuso do direito à greve, diz que não há verdadeira liberdade de escolha no actual sistema político e lamenta o poder das agências de "rating".

A greve só deve ser usada "como último argumento". Em entrevista à Renascença, Monsenhor João Evangelista lembra que a Associação Cristã de Empresários e Gestores (ACEGE) discutiu o assunto com patrões e sindicatos ainda no tempo do Estado Novo.

"Conseguimos mostrar que o direito à greve é admitido e justificado na doutrina social da Igreja como último argumento", refere o fundador da ACEGE. Para Monsenhor João Evengelista, as greves sirvem hoje quase exclusivamente interesses políticos.

"Naquele tempo, a greve política era considerada uma intromissão num campo que não era o seu. O que acontece agora é exactamente isso - só há greves para afirmar poderes políticos", diz Monsenhor João Evangelista.

Nesta entrevista, a propósito do "Prémio Fé e Liberdade", que lhe vai ser atribuído pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, o fundador da ACEGE considera que não há verdadeira liberdade de escolha no sistema democrático actual.

"As pessoas não sabem em quem votam, nem em que votam, e cada vez sabem menos. Os candidatos deviam dar informação sobre si próprios", afirma Monselhor João Evangelista, que considera que a Igreja também tem o dever de ajudar a esclarecer as pessoas, sem ter necessariamente de entrar na política.

O fundador da ACEGE critica ainda o poder das agências de "rating". "Como é que é possível? Se quiserem destruir um Estado, destroem-no."

Monsenhor João Evangelista lamenta que os próprios governantes se curvem perante este poder: "Parece que estamos todos de joelhos diante deste potentado que conduz e dá os veredictos, quem pode e não pode, quem caminha e não caminha. E se o fizessem com suficiente protecção às classes mais pobres... Mas estão a fazer o contrário".

A surpresa do prémio
Aos 88 anos, Monsenhor João Evangelista é, desde 2001, pároco da Sé Velha de Coimbra. Esta semana vai receber o "Prémio Fé e Liberdade" pelos 50 anos de trabalho na ACEGE, que ajudou a fundar em 1952 (inicialmente era a União Católica de Industriais e Dirigentes do Trabalho).

A notícia do prémio foi recebida com surpresa: "Eu não fui programado para receber prémios, só para ter um prémio, que é o da vida eterna. Aceitei este porque fé e liberdade são dois pilares fundamentais em que se apoia o encaminhamento para o reino de Deus".

Vão ser igualmente distinguidos com o galardão, que a Universidade Católica atribui pela primeira vez, o Arcebispo emérito da Beira, D. Jaime Gonçalves, e Maria Barroso, presidente da Pro Dignitate e da Cruz Vermelha Portuguesa. O prémio tem apoio da Renascença.