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Tradicionalistas divididos sobre reunificação com Roma

11 mai, 2012 • Filipe d’Avillez

Três dos quatro bispos da Sociedade de São Pio X manifestaram-se contra uma eventual reconciliação com o Vaticano. Superior-geral mantém-se firme, contudo.  

Tradicionalistas divididos sobre reunificação com Roma
A hierarquia da Sociedade de São Pio X (SSPX) está profundamente dividida sobre uma eventual reconciliação com Roma.

A SSPX está em ruptura com a Igreja Católica desde 1988, quando o fundador do grupo, o já falecido Marcel Lefebvre, ordenou quatro bispos sem autorização do então Papa João Paulo II.

Segundo cartas privadas que têm circulado na internet, e cuja autenticidade já foi comprovada, três desses quatro bispos estão fortemente opostos a qualquer reunificação nesta altura. Apenas o superior-geral da Sociedade parece apostado em alcançar uma solução para a ruptura. As recentes notícias apontam mesmo para a possibilidade de uma solução ser anunciada até ao final do mês de Maio.

Caso se concretize esse cenário, que poderá passar pela criação de uma prelatura pessoal para os tradicionalistas, parece cada vez mais provável que haja uma cisão no interior da SSPX.

Uma prelatura pessoal permitiria aos membros da Sociedade operar de forma autónoma dos bispos diocesanos. A única organização que goza desta estrutura actualmente é o Opus Dei.

Numa carta datada de inícios de Abril e endereçada ao superior-geral Bernard Fellay, que foi posta a circular há dois dias na internet, os bispos Alfonso de Galaretta, Bernard Tissier de Mallerais e Richard Williamson dão a conhecer a “unanimidade da sua oposição formal a qualquer acordo”, uma vez que, no seu entender, “desde o Vaticano II as autoridades oficiais da Igreja têm-se desviado da verdade católica e, hoje, mostram indícios de se manterem fiéis às doutrinas e às práticas conciliares.”

O concílio Vaticano II é o grande ponto de discórdia entre a SSPX e o Vaticano. Os tradicionalistas criticam sobretudo os documentos relativos à liberdade religiosa, ecumenismo e diálogo inter-religioso.

Ao longo da carta os três bispos criticam o pensamento do actual Papa Bento XVI, “impregnado de subjectivismo” e revelam o seu medo de que “mesmo um acordo meramente prático silenciaria necessariamente, a pouco e pouco, a sociedade”.

Já perto do final questionam: “Tendo lutado ao longo de mais de quarenta anos, deve a Sociedade agora colocar-se nas mãos dos modernistas e liberais?”, e avisam o superior-geral: “Tenha cuidado! Você quer levar a Sociedade a um ponto sem retorno”.

A carta foi divulgada juntamente com a resposta do superior-geral. O bispo Bernard Fellay é muito duro na sua crítica aos três colegas que lhe manifestaram as suas reservas, acusando-os de falta de sentido sobrenatural e de realismo.

“Ao ler a vossa carta ficamos com dúvidas sobre se acreditam que a Igreja visível, cuja sede é em Roma, é de facto a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, uma Igreja desfigurada, é certo, mas uma Igreja que não obstante ainda tem como cabeça Nosso Senhor Jesus Cristo”, escreve.

Falta de fé e de lealdade
Fellay acusa os restantes bispos de falta de fé e de verem “apenas os perigos, as conspirações, as dificuldades, mas já não vêem a assistência da graça e do Espírito Santo.”

Numa afirmação importante, o superior-geral critica ainda a visão que muitos membros da SSPX têm do Concílio Vaticano II: “No seio da Sociedade, alguns estão a transformar os erros do Concílio em super-heresias, mal absoluto, a pior coisa do mundo, da mesma maneira que os liberais têm dogmatizado esse concílio pastoral”

“Este é um assunto grave porque já não corresponde à realidade e a sua consequência lógica será um verdadeiro cisma. Poderá mesmo ser esta uma das razões que me impele a não adiar mais uma resposta às autoridades de Roma”, escreve.

O bispo termina a sua carta num tom pessoal, lamentando a falta de lealdade dos seus colegas bispos da SSPX: “Não podem saber como a vossa atitude nos passados meses – de forma diferente para cada um – tem sido difícil para nós. Tem impedido o Superior-geral de comunicar convosco e de partilhar estes assuntos tão importantes, em que ele vos teria envolvido de bom grado caso não se tivesse confrontado com uma incompreensão tão apaixonada”.

A resposta da SSPX à proposta de reunificação do Vaticano foi enviada em Abril e neste momento estarão a ser limadas as arestas para se poder anunciar um acordo formal que ponha fim à única ruptura significativa que resultou do Concílio Vaticano II.