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Movimento Fé e Luz

Não há pessoas "desimportantes" no corpo místico de Cristo

22 abr, 2012 • Filipe d’Avillez

Como é que as famílias que têm filhos com deficiência mental se podem integrar melhor na vida da Igreja? Conversámos com Alice Cabral, do movimento Fé e Luz, que se dedica exactamente a esta temática.  

Não há pessoas "desimportantes" no corpo místico de Cristo
O movimento Fé e Luz preocupa-se sobretudo “com o isolamento que vivem as famílias de pessoas com deficiência mental, e as próprias pessoas, e alguma reticência da sociedade em geral, mas particularmente da Igreja, de as acolher com a solicitude maternal que seria expectável”.

A história pessoal da Alice Cabral é reveladora: “Eu tinha um filho com deficiência mental, que era conhecido por Dido. Diziam-me que não tinha que me preocupar por não ir à missa, porque eu tinha o Dido e portanto tinha uma missão na terra e estava dispensada da frequência da Igreja. Essa dispensa era algo de que eu não precisava, pelo contrário.”

A integração na sua comunidade paroquial não foi simples, mas acabou por beneficiar tanto o Dido e a sua família como o resto da paróquia, incluindo o sacerdote: “O Dido tinha uma deficiência mas tinha também outras coisas que não eram limitadas. Era uma pessoa importante, e era importante também para aquele círculo de pessoas, e aquela comunidade paroquial aprendeu a viver e a ter no seu seio o Dido, que fazia barulho e não se portava bem, mesmo.”

Passado pouco tempo aquela pessoa especial já não era uma presença incómoda: “A comunidade aprendeu que aqueles gritos que ele dava não eram para assustar, eram a maneira dele se exprimir e mostrar que estava contente. Estando inseridos numa paróquia, é mais fácil a comunidade e os párocos aprenderem o que esperar destas pessoas”.

Para além desta integração normal nas paróquias, o movimento Fé e Luz serve de suporte. Os seus membros encontram-se com regularidade mensal, partilham as suas experiências, rezam em conjunto e festejam.

“O facto de termos um grupo com quem partilhamos experiências parecida e de ter pessoas que aprendem a olhar para os nossos filhos com entusiasmo, como nós temos, é uma coisa que nos transforma muito e nos faz crescer na fé e pessoalmente”, explica Alice Cabral.

A festa
Para além dos pais e dos filhos com deficiência, o movimento é composto por um assistente espiritual e por “jovens amigos”, sem deficiência, que pela proximidade etária podem estabelecer com os deficientes uma relação diferente daquela que é vivida pelos pais. “De facto o Fé e Luz, para as pessoas com deficiência mental é considerada a festa, porque eles são mestres em fazer festa, e tornam estes encontros em momentos de grande alegria e grande celebração”.

Para Alice Cabral, a Igreja revela-se frequentemente distraída no que diz respeito a esta questão: “A Igreja está muito desatenta. Em termos de documentos que existem, coisas publicadas pelos bispos, não devia haver uma desatenção tão grande. Continua também a haver muito poucas pessoas com deficiência nas catequeses paroquiais e alguns párocos têm dúvidas sobre a sacramentação das pessoas com deficiência mental.”

Alice Cabral recorda-se de um episódio com uma afilhada dela a quem foi recusado o crisma, depois de ter feito toda a preparação. A situação acabou por se resolver, mas só depois de ter criado muita angústia para a jovem e para os seus amigos e familiares.

A dirigente do movimento Fé e Luz, que é também responsável do Serviço Pastoral a Pessoas com Deficiência, confessa que a extensão da deficiência de Dido tornava difícil detectar nele uma expressão espiritual. Mas noutras pessoas com deficiência essa vertente é muito importante, garante.

Em todo o caso, através do movimento Fé e Luz aprendeu a compreender o valor do seu filho aos olhos de Deus: “mesmo se o Dido não percebia o que estava a fazer, ele é um elemento importante da Igreja, porque ele é uma pessoa importante e no corpo místico de Cristo não há pessoas ‘desimportantes’. O que é que ele compreendia dos sacramentos, da missa? Não sei. Mas eu também não sei o que é que compreendo do mistério de Deus”, afirma.

Integrado nas celebrações dos 40 anos da sua existência o Movimento Fé e Luz organiza uma peregrinação a Fátima. Os interessados são convidados de forma especial a comparecer no Domingo, às 14h30 para assistir a uma conferência e poder esclarecer dúvidas e obter mais informação. Nesse sentido podem contactar directamente a Alice Cabral por e-mail.