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De inimiga a “parceira”, as relações entre a Igreja e Cuba

26 mar, 2012 • Filipe d’Avillez

“O comunismo pensou que a crença religiosa era uma questão de falta de conhecimento, de educação, de recursos e, afinal, não era”, explica antropóloga.

De inimiga a “parceira”, as relações entre a Igreja e Cuba
De inimiga a “parceira”, as relações entre a Igreja e Cuba
Bento XVI chega esta segunda-feira a Cuba, naquela que é a sua primeira visita a um país oficialmente comunista. Apesar da natureza política do regime, esta é uma ilha marcada por uma forte religiosidade, como explica Diana Espírito Santo, antropóloga social ligada ao Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

“É um povo que, ao contrário daquilo que se pensa, tem uma religiosidade bastante aprofundada, que não desapareceu ao fim destes anos todos, e que por um lado é mal documentada e, por outro, continua a existir de uma maneira muito forte e muito popular.”

Os poucos dados analíticos sobre prática religiosa fizeram Diana Espírito Santo avançar para investigação no terreno sobre religiões populares cubanas. Historicamente, explica, há muitos momentos de tensão entre as religiões e o Governo de Havana.

“Fidel Castro teve uma relação muito complicada com a Igreja Católica. No princípio da revolução houve vários passos dados pela Igreja que demonstravam uma certa aliança com a ditadura e, logo após a revolução, também”, explica a antropóloga social.

A descoberta de padres entre os invasores no falhado golpe da Baía dos Porcos foi um forte agravante: “Fidel consolidou esse antagonismo depois do fiasco da Baía dos Porcos. Fecha seminários, invalida títulos de universidades católicas e deporta padres. Muitos dos padres nessa altura foram expulsos ou presos”.

O cenário muda de figura a partir dos anos 90. A queda do regime soviético tira o tapete económico debaixo dos pés de Havana. O povo começa a passar dificuldades e vira-se para a religião.

“As pessoas estavam sob enorme pressão e a religião tornou-se não só um ponto de escape espiritual e existencial, mas também de apoio económico e social. As redes forneciam uma espécie de família que era uma fonte de apoio e de comida, até”, adianta Diana Espírito Santo.  

“O comunismo pensou que a crença religiosa era uma questão de falta de conhecimento, de educação, de recursos e, afinal, não era. Ao fim de 30 anos de comunismo, as pessoas estavam a praticar mais até do que antes. Então o regime decidiu aliar-se a isso e não opor-se”, refere Diana Espírito Santo.

Fidel de fato e gravata
É nesta altura que surge a possibilidade de João Paulo II visitar Cuba. “A visita, em 1998, foi a cristalização desse processo todo. Foi extraordinário - o Papa foi recebido por milhares de pessoas em Havana. Fidel Castro recebeu-o sem farda militar, um acto de reverência.”

Durante a sua estadia, o Papa apelou ao fim do boicote americano, mas pediu também mais liberdade religiosa. “Fidel prometeu que seria mais tolerante e mais flexível, e foi. Os anos 2000 foram completamente diferentes”, conclui a antropóloga social.

Desde então, e como provam os acontecimentos do último ano, a hierarquia católica conseguiu tornar-se intermediária do regime em questões de liberdade de consciência, tendo conseguido a libertação de dezenas de presos políticos. 

Na antecipação da sua visita a Cuba, Bento XVI afirmou que está provado que o comunismo “não resulta” no país, mas estendeu a mão, dizendo que a Igreja quer ser “parceira” de Cuba na procura de outras soluções.