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Obama dá sinais de ceder diante de frente católica unida

08 fev, 2012 • Filipe d'Avillez

Sondagens indicam que a maioria dos católicos eleitores discorda da lei de Obama que obriga as instituições religiosas a fornecer contraceptivos aos seus funcionários.

Obama dá sinais de ceder diante de frente católica unida
A resposta praticamente unânime dos bispos católicos contra a medida de Barack Obama que obriga as instituições católicas a fornecer contraceptivos e medicamentos abortivos aos seus funcionários parece estar a dar resultado, com a administração a dar os primeiros sinais de cedência ontem.

Desde que a lei foi anunciada, há cerca de duas semanas, mais de 90% dos bispos americanos titulares de uma diocese já falaram publicamente contra a medida, acusando Obama de os querer obrigar a violar as suas consciências sob pena de pesadas multas. Uma frente unida deste género é quase inédita na história recente da Igreja americana e poderá ter apanhado os democratas de surpresa.

Para além dos bispos católicos também todos os 53 bispos ortodoxos e um número considerável de líderes protestantes e judeus se manifestaram contra a medida.

Ontem, numa tentativa para minimizar os estragos, sobretudo em ano de eleições presidenciais, membros da administração desdobraram-se em declarações públicas dizendo que Obama não tem qualquer intenção de limitar a liberdade religiosa e que acreditam que será possível encontrar uma alternativa que satisfaça ambas as partes.

“Certamente não queremos limitar a liberdade religiosa de ninguém, por isso vamos tentar encontrar uma forma de avançar que respeite tanto o direito das mulheres a cuidados preventivos como a prerrogativas das instituições religiosas”, afirmou David Axelrod, um conselheiro para a campanha de reeleição de Barack Obama, num programa de televisão da rede MSNBC.

O termo “cuidados preventivos” é a expressão usada pelos aliados de Obama para se referirem a contraceptivos, esterilização e medicamentos com efeitos abortivos que são abrangidos pela lei.

Contudo, Obama também não quer passar a imagem de que está a ceder completamente nesta questão e afirma que está decidido a que todas as mulheres tenham direito a estes “cuidados preventivos”. O New York Times cita uma fonte da Casa Branca que diz que os conselheiros do presidente estiveram fortemente divididos entre si sobre a questão e que a decisão final coube directamente a Obama.

A alternativa poderá passar por um modelo que permita que quem queira possa obter os serviços contraceptivos por outra via, que não seja paga pelas instituições religiosas.

Sondagens para todos os gostos
Ao mesmo tempo que faziam estas declarações, os conselheiros de Obama faziam questão de alertar para uma sondagem que mostra que 58% dos católicos consideram que as entidades patronais deviam fornecer serviços contraceptivos aos seus empregados.

Contudo, a mesma sondagem revela nuances. Quando a pergunta é formulada em relação a instituições religiosas o número de católicos que defende a obrigatoriedade desce para 52%. Mais preocupante para os democratas, entre os católicos que são eleitores a tendência inverte-se, com 45% a dizer que sim e 52% contra.

Mais do que a questão dos contraceptivos em si, porém, os católicos poderão reagir mal ao que sentem ser uma investida da administração contra a Igreja, com desrespeito pela liberdade de consciência. Vários analistas estão a alertar para os eventuais custos que isto pode ter para Obama num ano de eleições, sobretudo tendo em conta que o “voto católico” foi crucial para ele ganhar o seu primeiro mandato.

Quem não perdeu tempo para tirar proveito político da situação foram os candidatos republicanos que criticam, a uma só voz, a medida. Mitt Romney, que actualmente lidera nas primárias republicanas, diz que se for eleito em Novembro anulará a lei no seu primeiro dia na Casa Branca.