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Em Damasco, tudo calmo…

30 dez, 2011 • Filipe d'Avillez

Bashar al-Assad parece intocável em Damasco. Os cristãos em particular, cerca de 10% da população, continuam firmemente ao lado do regime.

Enquanto as agências internacionais dão conta de uma revolução em andamento na Síria, a vida em Damasco continua quase incólume. É pelo menos essa a impressão de um jovem brasileiro que se encontra na capital.

Philippe Tavares, brasileiro de ascendência árabe, é seminarista da Igreja Melquita, uma igreja católica de rito próprio, que tem a sua sede em Damasco. A fazer os seus estudos no seminário de Beirute, aproveitou as férias de Natal para ir à Síria e garante que a impressão na capital está longe de reflectir o estado de sítio.

“Aqui em Damasco, tenho sentido um clima bem calmo, apesar das duas explosões de sexta-feira. Por acaso até estava bem perto e escutei-as bem. No geral, o clima está bem tranquilo”, confirma.

A nível de comoção, aliás, só tem a destacar uma vaga de apoio a Bashar Al-Assad: “Nas ruas em que passei, vi um grande apoio ao presidente - só tenho visto apoio ao presidente. Várias bandeiras da Síria, músicas de apoio. Há uma música especial, ‘Deus, Síria e Bashar é o que nos basta’”.

Philippe Tavares realça que até se nota a presença das forças de segurança nas ruas, mas nada de imponente: “Existe alguma proteção, mas não é tanta, pelo menos não pelos nossos padrões. Não sinto isso”.

Harmonia inter-confessional
O seminarista diz não ter dúvidas de que as manifestações de apoio que tem visto são genuínas e refere que esse apoio é particularmente forte entre a comunidade cristã, na qual está inserido e que compõe 10% da população do país: “Confirmo o apoio dos cristãos ao presidente. Imagino que eles tenham medo que alguém de uma linha extremista chegue ao poder, mas acredito que gostem mesmo dele de forma positiva”.

A impressão é justificada pelos esforços que a família Assad tem feito para garantir a harmonia inter-confessional no país: “Bashar tem vindo a tomar, há anos, várias medidas a favor dos cristãos, como, por exemplo, manter a isenção de pagar luz e água para as igrejas, mesmo privilégio dado às mesquitas, concedido primeiramente por seu pai, Hafez. Ele reconhece que a Síria é o berço do Cristianismo, uma coisa importante para um político muçulmano e no mundo árabe, onde há o confessionalismo mais forte. Realmente sinto esse apoio aqui, mas sinto que está condicionado ao cumprimento das reformas que ele já prometeu fazer”.

E se o regime cair mesmo, esse apoio dos cristãos poderá sair-lhes caro? Philippe diz não saber comentar o que se poderá passar nessa situação, mas afirma que, no geral, os cristãos e os muçulmanos dão-se bem na Síria: “Os cristãos não têm medo dos muçulmanos - isso nem tem sentido. Eles convivem nesta terra há 1400 anos, construíram uma civilização, um país, juntos. Os cristãos têm muito a contribuir para esta terra, mesmo alguns sheikhs reconhecem isso. Os cristãos, que por regra têm bons estudos e são cultos, são o levedo na massa para conseguir uma sociedade harmoniosa”, conclui.