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O padre que quer salvar as orações do povo

25 nov, 2011 • Filipe d'Avillez

Ricardo Mónica apresenta um musical composto por músicas religiosas e etnográficas da região de Almeirim.

Tem 41 anos de vida, oito de sacerdote, e algumas das orações que tem ajudado a salvar caíram em desuso antes sequer de ter descoberto a sua vocação pela música, “a dançar com os homens do campo”.

O padre Ricardo Mónica, da diocese de Santarém, tem trabalhado incansavelmente para salvar o património da religiosidade popular da sua terra natal, Almeirim. O objectivo é resgatar as orações que passavam de geração em geração, cantadas por avós à lareira ou recitadas por trabalhadores no campo.

Em 2008, o seu trabalho resultou num CD, “EnCantos da Minha Terra”. Três anos mais tarde, as orações e músicas ganham novos contornos - um musical que vai a palco no Cartaxo, onde é pároco, no próximo dia 30 de Novembro, às 21h30, e no dia 1 de Dezembro, às 16h00.

“Quando nos começaram a pedir para apresentar as orações, achámos que dava um espectáculo muito seco, muito cru. Então, reconstituímos diversas partes, quer do dia, quer do ano, em que pudessem estar presentes essas orações, cantadas ou citadas, algumas com dança fortemente etnográfica", conta à Renascença o padre Ricardo Mónica.

"Conseguimos recriar uma história que começa com o nascer do sol e termina no pôr-do-sol, com as orações da noite, passando também pela Páscoa, pela Quaresma e outros tempos do ciclo litúrgico”, explica o sacerdote, que, para este trabalho, contou com o apoio de um grupo de cerca de 16 amigos.

Os bilhetes, que custam 10 euros, podem ser comprados no Centro Cultural do Cartaxo, na Igreja e junto de dirigentes dos escuteiros. O dinheiro reverte para os escuteiros e para as obras da Igreja do Cartaxo.

Salvar as orações
Se não fosse este esforço de recuperar as orações, havia o risco de perdê-las: “Embora estivessem registadas em livro, são  um património imaterial que ficaria esquecido na história, como outros se têm perdido”, refere o sacerdote.

E estes "património imateriais" ainda se perdem um pouco por todo o país. Não raramente, o padre Ricardo Mónica recebe orações enviadas por pessoas de longe, textos que lhe são confiados porque mais ninguém se parece interessar pelo assunto.
 
"É comum eu receber orações de outras dioceses, sobretudo do Norte - Braga, Viana do Castelo, Bragança. Às vezes mandam só o texto, porque não se lembram da música, porque acham que estão a perder isso e querem que eu as guarde e registe. É um património imaterial da religiosidade popular, que faz a ligação entre o pagão e o religioso e é importante na memória da nossa história."

Com tantos anos dedicados a este assunto, há duas orações que se mantêm especiais: uma pelas memórias que evoca, a outra pelo significado.
 
“A oração de Santa Bárbara, das trovoadas, porque tenho a memória plena da minha bisavó rezar essa oração - e sempre me marcou muito a oração de Santa Bárbara, de quem só nos lembramos quando troveja. Depois, claro, o tema de abertura, o 'Virgem da Mãe Candura', que revela a devoção que o povo português tem por Nossa Senhora."