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Bispos alertam que "obscuros jogos de capital" podem ameaçar a democracia

10 nov, 2011 • Filipe d'Avillez

"Excessiva especulação financeira e pouca consistência económica enfraqueceram Portugal internamente e prejudicaram-no internacionalmente", refere a Conferência Episcopal Portuguesa.

Bispos alertam que "obscuros jogos de capital" podem ameaçar a democracia
Foto: Paula Costa Dias
Os bispos portugueses alertam para os perigos que a actual crise pode trazer para o próprio sistema democrático. “É cada vez mais claro que a política internacional não pode reduzir-se, nem muito menos submeter-se, a obscuros jogos de capital que fariam desaparecer a própria democracia”, lê-se na mensagem que emitiram hoje no final da Assembleia Plenária da Conferência Episcopal (CEP), que decorreu em Fátima.

Os bispos consideram que a participação cívica é essencial: “Nem podemos abster-nos da vida democrática, nem devemos cair nas mãos de novos senhores sem rosto. Também aqui se há-de respeitar a verdade, condição básica da justiça e da paz”.

A mensagem que a CEP emitiu aponta como causas da actual crise a confluência de factores externos e de uma economia frágil, mas também “aspirações impossíveis de concretizar”.

“Excessiva especulação financeira e pouca consistência económica somaram-se negativamente e tanto nos enfraqueceram internamente, como nos prejudicaram internacionalmente. Alimentámos, ou alimentaram-nos, aspirações que agora são impossíveis de concretizar. Falha hoje a própria base material em que tudo o mais se sustenta, ou seja, uma vida económica saudável e suficientemente apoiada pelo investimento e pelo crédito, que garanta trabalho digno para todos”, lamentam os bispos.

Nesta época de crise, a CEP afirma-se próxima de todos os cidadãos e dos imigrantes - “que connosco constituís Portugal” -, mas reserva uma atenção especial para os mais vulneráveis.

“Como bispos católicos, devemos e queremos estar absolutamente com todos, em especial com quem mais precisa de palavras e gestos de esperança: esta nasce da solidariedade e de um Deus que nunca nos abandona”, lê-se na mensagem.

O texto promete que a CEP continuará a apoiar quem mais precisa, através das suas instituições de solidariedade, e recorda quatro princípios da Doutrina Social da Igreja que considera essenciais para se ultrapassar a crise: o respeito pela dignidade da pessoa humana, o cuidado pelo bem comum, a subsidiariedade e a solidariedade, “expressão da fraternidade, que nunca procura o bem particular sem ter em conta o bem de todos”.

Comentando este comunicado, o economista João César das Neves diz que a igreja tem denunciado a “especulação”, mas acrescenta que a má governação de muitos políticos não tem ajudado.

“É preciso dizer que não há apenas jogos de capital sinistros, há uma enorme quantidade de pessoas que puseram as suas poupanças moderadas em dívida pública e têm medo de não vir a receber o seu dinheiro porque os Estados não estão a pagar. É verdade que a política está a ser comandada pelos seus credores, mas também é verdade que essa situação foi causada por uma irresponsabilidade orçamental de alguns países. Há um problema de fundo que tem a ver com a irresponsabilidade de políticos que adquiriram dívidas que agora não estão a conseguir pagar”, disse César das Neves.