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Judaísmo

Judeu solitário provoca onda de anti-semitismo na Líbia

07 out, 2011

Os judeus chegaram a constituir 4% da população da Líbia, hoje não resta nenhum.

David Gerbi só queria limpar a sinagoga do bairro onde cresceu mas despoletou uma reacção que culminará com uma manifestação contra os judeus na praça central de Tripoli, esta noite.

O judeu, provavelmente o único no país neste momento, é presidente da Organização Mundial de Judeus Líbios, uma das associações que representa os judeus que foram obrigados a deixar o país ao longo do último século, e seus descendentes.

Nascido e criado em Tripoli até aos 12 anos, David Gerbi, que vive normalmente em Itália e é psicanalista, decidiu regressar à Líbia quando percebeu que o regime de Khadaffi, que promovia activamente o anti-semitismo e nacionalizou as propriedades dos judeus no país, estava em queda.

Inicialmente bem recebido pelos habitantes do bairro onde cresceu, contratou alguns rapazes para o ajudar a limpar a antiga sinagoga, completamente abandonada e repleta de lixo, com a intenção de a purificar. Era parte de um plano que, a longo prazo, veria a recuperação de outras sinagogas e cemitérios judaicos e o eventual restabelecimento da comunidade naquele país.

Durou cerca de um dia. Quando voltou para lá no dia seguinte foi recebido por homens armados que o afastaram do local. Agora não pode sequer deixar o seu quarto de hotel sobretudo hoje, dia em que foi convocada para a praça central de Tripoli uma manifestação com três objectivos: contra o regresso dos judeus à Líbia, contra a reabertura da sinagoga e contra a presença de Gerbi no país.

O psicanalista já foi avisado que deve abandonar a Líbia pela sua segurança, mas tem resposta pronta: “Como psicanalista oriento-me pela definição de neurose como a repetição das mesmas acções com a expectativa de resultados diferentes. Nós judeus temos obedecido repetidamente a recomendação de ‘fugir para nosso bem’. Desta vez não saio. A minha fé em Deus dá-me força”, afirma.

No início do século XX havia cerca de 21 mil judeus na Líbia. Com a fundação de Israel e o aumento do anti-semitismo deram-se repetidas vagas de emigração. A última judia residente, tia de Gebri, abandonou o país em 2002.