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Tornou-se mãe aos 12 anos. A partir daí, tudo mudou

03 ago, 2015 • Filipe d’Avillez e Joana Bourgard

A experiência mostra que a gravidez adolescente não tem de ser uma tragédia. Quem está no terreno para ajudar garante que não conhece quem se tenha arrependido de ter o filho e há histórias de sucesso, como da Vanessa.  

Tornou-se mãe aos 12 anos. A partir daí, tudo mudou
Tornou-se mãe aos 12 anos. A partir daí, tudo mudou
O impensável aconteceu e aos 12 anos Vanessa percebeu que estava grávida. Foi para a Casa de Santa Isabel, instituição que acolhe mães adolescentes, e viu os irmãos a serem institucionalizados e adoptados. Hoje, com 24 anos, Vanessa Silva não imagina a vida sem a filha, Lara, e os cuidados que tem com ela são tudo o que não teve em criança. Em 2004, o ano de Lara, nasceram 5819 bebés de mães entre os 13 e os 19 anos, no ano passado nasceram perto de 2500.
Tinha apenas 12 anos. O rapaz com quem estava era pouco mais velho, tinha 15. Duas crianças sem verdadeira noção daquilo em que se estavam a meter.

“Tinha noção que isso acontecia... Mas aos outros. A nós nunca nos acontece nada, não é?”, diz Vanessa Silva, actualmente com 24 anos e funcionária num lar, em Alenquer.

Só que aconteceu mesmo. Vanessa engravidou, mas, na inocência dos seus 12 anos, levou meses a perceber. Nem o facto de não lhe aparecer a menstruação levantou suspeitas. “Eu era uma miúda. Eu queria era não ter, não sabia porque é que não acontecia. Quem deu conta mesmo foi o meu irmão mais velho, que estranhou, porque era ele quem nos pagava tudo. O meu pai, na altura, já era ausente. E estranhou que alguma coisa se passava para eu não pedir dinheiro para as coisas de mulher.”

A consulta no hospital confirmou as suspeitas, para desgosto e frustração do irmão mais velho, que, desde a morte da mãe e do abandono por parte do pai, cuidava da família de seis irmãos. “Eu era das mais novas e ele sentia que falhou. Era frustrante, porque ele matava-se a trabalhar para conseguir criar os irmãos e, no entanto, foi um bocado desilusão. E havia a preocupação de saber o que iria acontecer comigo, porque, naquele instante, ele percebeu que nunca mais ia voltar a ser a mesma coisa, tudo ia mudar.”

Vanessa foi encaminhada para a Casa de Santa Isabel, um centro de acolhimento do Apoio à Vida, vocacionado para acolher grávidas em situações difíceis. Os outros irmãos foram para diferentes instituições e as duas mais novas acabaram por ser adoptadas. Apesar de na altura ter custado, Vanessa não duvida que foi para melhor.

“Foi tudo melhor. Era egoísta da minha parte dizer que ia ser possível. Não ia. As duas irmãs mais novas tinham problemas de saúde e o meu irmão tinha a vida dele. Era um rapaz novo também, tinha de constituir a família dele, mas, coitado, ele tomava conta de nós como se fôssemos filhos, e não éramos.”


Joana Tinoco de Faria, psicóloga no Apoio à Vida

Centenas de casos todos os anos
Todos os anos em Portugal nascem centenas de bebés cujas mães têm menos de 15 anos. As gravidezes com 11 ou 12 anos são raras, mas existem. As razões por detrás são mais complexas do que podem parecer à primeira vista, explica Joana Tinoco de Faria, psicóloga do Apoio à Vida.

“Muitas vezes as gravidezes surgem, psicologicamente, como um grito inconsciente de autonomia e até de uma construção de um projecto de família desfasado, isto é, fantasioso, mas um grito por uma família própria, um porto de abrigo, em famílias em que isto se calhar não existe", declara.

Para muitos que assistem de fora a solução mais óbvia poderia parecer ser o aborto, mas a vontade das meninas muitas vezes é outra. Não é raro haver, nesses casos, uma pressão difícil de resistir. “Se ponderam abortar nesta etapa tem sobretudo a ver ou com a pressão da família, o que acontece com frequência e a família tem aqui um peso fundamental, sobretudo nestas idades, e normalmente é a família que não vê uma maternidade adolescente como uma possibilidade na vida daquela rapariga”, diz a psicóloga.

“Parece uma resolução, o chamado ‘desengravidar’, isto é, ‘engravidaste, mas vamos resolver o assunto’ e é frequentemente assim que é abordado este assunto. Acho que a família, grande parte das vezes acredita que está a fazer o melhor, porque sente que está a devolver à criança aquela infância. Resta saber se passar por uma experiência como o aborto, ainda que não se tenha a verdadeira consciência daquilo que se está a fazer, mais tarde não se vai fazer sentir de outras formas.”

No caso da Vanessa, o aborto legal não era opção. A Lara nasceu em Maio, já a mãe tinha 13 anos, mas a estadia na Casa de Santa Isabel prolongou-se por vários anos. A ideia da instituição é a de que as raparigas só saiam com um projecto de vida formado, como explica Fernanda Ludovice, directora do centro de acolhimento: “Gostamos que nos cheguem o mais cedo possível na gravidez, porque temos um espaço enorme para preparar a gravidez, vincular a mãe ao bebé, enquanto está dentro da barriga, mas, às vezes, não acontece assim.”

“Depois da gravidez, os primeiros tempos do bebé, para preparar a mãe para as coisas mais normais, como tomar banho, amamentar, passar à sopa... Todas essas coisas. Depois desses quatro ou cinco meses em que elas estão completamente centradas no bebé, e no seu papel de mãe, a preparação para o regresso ao mundo lá fora, à vida de trabalho, construção de competências ao nível profissional”, conclui.



Vanessa Silva

Engravidar existe, “desengravidar” não
Foi o que se passou com a Vanessa, que hoje em dia leva uma vida independente e segura, sustentando-se a si e à Lara com o fruto do seu trabalho. A menina de 12 anos já lá vai. “Saí a agradecer tudo o que fizeram por mim. Porque se não fosse a Casa de Santa Isabel eu não era quem sou hoje. Devia ser uma grande calona que não queria trabalhar, que não queria nada, mas sou completamente o oposto”, que é como quem diz, “se não fosse a Lara, não era eu.”

A verdade, porém, é que nem todas as meninas que engravidam têm a sorte da Vanessa. Algumas escolhem, ou são empurradas, para um caminho diferente e doloroso. Porque na verdade, o verbo “desengravidar” não existe.

A psicóloga Joana, que admite nunca ter acompanhado uma mulher que se arrependesse de ter tido o seu filho, recorda: “Uma vez fui a uma escola falar e quando estava a sair, houve uma rapariga que se aproximou de mim e que disse que gostava de falar comigo. Vinha de lágrimas nos olhos e disse-me: ‘Só lhe quero pedir um favor: Que falem disto a mais gente. Porque se eu soubesse o que sei hoje, se soubesse que havia ajudas, não tinha feito o que fiz.”

O Apoio à Vida opera em Lisboa desde 1998. Todos os anos recorrem aos seus serviços cerca de 350 mulheres e pela Casa de Santa Isabel, que foi fundada em 2003, já passaram pelo menos 140 mães. A instituição tem um número grátis para quem precisa de ajuda: 800 20 80 90