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Papa diz a religiosos: “Não somos mercenários, somos servidores”

08 jul, 2015 • Aura Miguel, no Equador, e Filipe d'Avillez

No seu discurso oficial, que não foi lido mas que o Papa tornou público, Francisco pede aos padres, bispos e religiosos que sejam perseverantes nas suas missões. "Viemos, não para ser servidos, mas para servir."

Papa diz a religiosos: “Não somos mercenários, somos servidores”
O Papa Francisco encontrou-se esta quarta-feira com membros do clero e da vida religiosa do Equador, no santuário de Nossa Senhora de Quinche, na capital do país, onde deixou de lado o seu discurso preparado e fez um outro, totalmente de improviso.

Francisco entregou o seu discurso escrito a um dos representantes do clero equatoriano, para que este o tornasse público. Nesse texto, o Papa insiste na ideia de que o dever dos religiosos é servir e não de ser servidos.

"Não somos mercenários, mas servidores; viemos, não para ser servidos, mas para servir, fazendo-o com desprendimento total, sem cajado nem bolsa", escreve Francisco.

O santuário de Quinche é dos mais importantes do Equador e dedicada à Virgem da Apresentação, representada iconograficamente por uma Nossa Senhora ainda menina a ser entregue ao templo, para servir o Senhor em exclusividade.

Francisco recorda no seu discurso que ao longo da história de Israel Deus responde várias vezes ao "clamor do seu povo, enviando uma criança, frágil, destinada a trazer a salvação e que, ao mesmo tempo, restaura a esperança de uns pais idosos".

"A palavra de Deus diz-nos que, na história de Israel, os juízes, os profetas, os reis são um presente do Senhor para fazer chegar a sua ternura e misericórdia ao seu povo. São sinal de gratuidade de Deus: foi Ele quem os elegeu, escolheu e destinou. Isto afasta-nos da auto-referencialidade, faz-nos compreender que já não nos pertencemos, que a nossa vocação requer que nos afastemos de todo o egoísmo, de toda a busca de lucro material ou compensação afectiva", sublinha Francisco.

Como já fez várias vezes desde que foi eleito, o Papa desafia então os padres, bispos e consagrados equatorianos a ir para o meio dos fiéis. "A 'autoridade', que os apóstolos recebem de Jesus, não é para seu próprio benefício: os nossos dons são para renovar e construir a Igreja. Não vos negueis a partilhar, não resistais a dar, não vos fecheis na comodidade; sede mananciais que transbordam e refrescam, especialmente a bem dos oprimidos pelo pecado, a desilusão, o rancor."

Entre as características que o Papa pediu aos sacerdotes e religiosos está a perseverança e fidelidade à missão, à imagem de Nossa Senhora. "A perseverança na missão implica não mudar de casa para casa, buscando onde nos tratem melhor, onde haja mais recursos e comodidades. Supõe unir a nossa sorte à de Jesus até ao fim. Saibamos perseverar, mesmo que nos rejeitem, ainda que se faça noite e cresçam a confusão e os perigos. Perseverar neste esforço, sabendo que não estamos sozinhos, que é o Povo Santo de Deus que caminha."

Nesta sua visita à América do Sul, que começou no domingo e tem a duração de dez dias, o Papa tem sido brindado por banhos de multidão e muito bem recebido pelos católicos equatorianos. Neste seu discurso, deixou também uma referência aos padres para não menosprezarem as manifestações de devoção popular.

"O povo fiel soube expressar a fé com a sua própria linguagem, manifestar os seus sentimentos mais profundos de dor, dúvida, alegria, fracasso, gratidão com várias formas de piedade: procissões, velas, flores, cânticos que se transformam numa bela expressão de confiança no Senhor e de amor à sua Mãe, que é também a nossa."

Esta devoção popular faz-se notar de forma especial nos santuários marianos, como é o caso de Nossa Senhora de Quinche. "A Ela recomendamos a nossa vocação; que Ela faça de nós um presente para o nosso povo, que Ela nos dê a perseverança na entrega e a alegria de sair para levar o Evangelho de seu Filho Jesus – unidos aos nossos pastores – até aos confins, até às periferias do nosso querido Equador", conclui Francisco.