Tempo
|

"Oh, se pudéssemos ver o adversário político como vemos os nossos filhos"

08 jul, 2015 • Aura Miguel, no Equador, e Filipe d'Avillez

Num discurso aos membros da sociedade civil o Papa Francisco voltou a falar da ecologia, um tema a que tem dedicado muita atenção durante o seu pontificado.  

"Oh, se pudéssemos ver o adversário político como vemos os nossos filhos"
"Oh, se pudéssemos ver o adversário político como vemos os nossos filhos"
Durante o encontro com representantes da sociedade civil de Quito, no Equador, o Papa Francisco apelou a que as relações sociais passem a ser moldadas no amor familiar. "Se pudéssemos ver o adversário político, o vizinho de casa com os mesmos olhos com que vemos os filhos, esposas ou maridos, pais ou mães... que bom seria", afirmou o Papa.
O Papa recebeu esta terça-feira à tarde, hora do Equador, as chaves da cidade de Quito, das mãos do presidente da câmara local. Logo de seguida, Francisco encontrou-se com representantes da sociedade civil a quem disse que agora, em virtude daquela cerimónia, sentia que é "da casa".

Esse episódio serviu para Francisco falar da importância de toda a gente numa sociedade sentir-se incluída, para que ninguém fique de parte.

"A nossa sociedade ganha, quando cada pessoa, cada grupo social se sente verdadeiramente de casa. Numa família, os pais, os avós, os filhos são de casa; ninguém fica excluído. Se alguém tem uma dificuldade, mesmo grave, ainda que seja por culpa dele, os outros correm em sua ajuda, apoiam-no; a sua dor é de todos. Não deveria ser assim também na sociedade?"

Infelizmente, contudo, a realidade é outra, lamenta Francisco. "As nossas relações sociais ou o jogo político baseiam-se muitas vezes na luta, no descarte. A minha posição, a minha ideia, o meu projecto consolidam-se, se for capaz de vencer o outro, de me impor. Isto é ser família?"

De seguida, o Papa Francisco apelou a que as relações sociais passem a ser moldadas no amor familiar. "Oh, se pudéssemos ver o adversário político, o vizinho de casa com os mesmos olhos com que vemos os filhos, esposas ou maridos, pais ou mães. Amamos a nossa sociedade? Amamos o nosso país, a comunidade que estamos tentando construir? Amamo-la nos conceitos proclamados, no mundo das ideias?"

"Amemo-la mais com as obras do que com as palavras! Em cada pessoa, em sua situação concreta, na vida que compartilhamos. O amor tende sempre à comunicação; nunca ao isolamento", pede Francisco.

Ao longo do seu discurso, o Papa Francisco teve ainda ocasião para regressar novamente ao tema da ecologia, que tinha abordado ainda esta terça-feira num discurso feito ao mundo académico.

"A exploração dos recursos naturais, tão abundantes no Equador, não deve apostar no benefício imediato. Ser administradores desta riqueza que recebemos compromete-nos com a sociedade no seu conjunto e com as gerações futuras, às quais não poderemos legar este património sem o devido cuidado do meio ambiente, sem uma consciência de gratuidade que brota da contemplação do mundo criado."

Este cuidado ecológico é ainda mais importante, segundo Francisco, na floresta amazónica, que o Equador partilha com vários outros países da América Latina. "O Equador – juntamente com os outros países detentores de franjas amazónicas – tem uma oportunidade para exercer a pedagogia duma ecologia integral. Recebemos o mundo como herança dos nossos pais, mas também como empréstimo das gerações futuras, a quem o temos de devolver."

O Papa dirigiu ainda algumas palavras aos presentes sobre as questões da migração e da pobreza, problemas sociais que afectam gravemente vários países e, sobretudo, o Equador, um dos estados mais pobres da América do Sul.

Os outros dois países que o Papa vai visitar nesta sua viagem à América Latina são a Bolívia e o Paraguai, também marcados por graves dificuldades sociais.