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Joseph Coutts

Líder católico do Paquistão: "Medo dos fundamentalistas" dificulta avanços na lei da blasfémia

23 jun, 2015 • Filipe d'Avillez

Em entrevista à Renascença, o presidente da Conferência Episcopal do Paquistão fala do aumento do clima de insegurança que afecta a sua comunidade e manifesta a sua esperança de que a lei contra a blasfémia seja alterada em breve.

Quando o Paquistão foi formado, em 1947, o seu líder Muhamed Jinnah fez um discurso em que prometeu que todos seriam livres de praticar a sua religião, fosse qual fosse, e que a unidade nacional estaria acima da identidade religiosa.

Pouco mais de 50 anos mais tarde começaram os ataques às minorias religiosas, incluindo ataques a cristãos e atentados contra igrejas e existe uma lei contra a blasfémia que condena regularmente pessoas inocentes e, nalguns casos, com deficiências mentais.

É neste contexto que vive o arcebispo de Karachi, Joseph Coutts. Está em Portugal por estes dias para falar da realidade para os cristãos no Paquistão – uma realidade tão negra que muitos já abandonaram a esperança e procuraram uma vida melhor noutro lado.

De vez em quando chegam-nos notícias de ataques a cristãos no Paquistão. Mas como é a vida dos cristãos no dia-a-dia? Há perseguição?
Enquanto minoria religiosa no Paquistão, sempre enfrentámos alguma discriminação. Mas o que se está a passar agora, com ataques a cristãos e bombas nas igrejas, é um fenómeno novo para nós.

O primeiro ataque do género, em 2001, pouco depois de os americanos começarem a bombardear o Afeganistão, foi traumático para nós. Dois jovens muçulmanos revoltados entraram numa igreja num domingo de manhã e começaram a disparar, matando 14 cristãos e ferindo muitos outros.

Essa foi a primeira vez que os muçulmanos atacaram uma igreja, nunca nos tinha acontecido. Mas desde então tem havido experiências ainda piores. Só este ano duas igrejas foram bombardeadas. Mas isto não vem do Governo, vem de grupos extremistas que têm a sua própria agenda e que também são uma ameaça para o Governo e até para muçulmanos moderados.

Este islão extremista é um fenómeno novo no Paquistão?
Este tipo de islão cresceu nas passadas décadas. Nunca tivemos isto antes. Há vários factores, mas esta forma de islão jihadista tem as suas raízes na invasão do Afeganistão pela União Soviética, em 1979, que assustou muito o mundo ocidental.

O Afeganistão tinha caído para o comunismo e o Paquistão poderia ser a seguir. Era preciso parar os comunistas, porque se o Paquistão caísse, haveria uma abertura para o Golfo, para a fonte do petróleo ocidental. Por isso, os governos dos Estados Unidos, da Arábia Saudita e do Paquistão juntaram-se para travar isso e para lutar encontraram os grupos extremistas.

A ideia da jihad foi oficialmente promovida. Os inimigos eram os ateus e os comunistas que tinham invadido o Afeganistão, um país 100% muçulmano. Isso era muito apelativo para os crentes muçulmanos. Trava o ateísmo e ajuda os teus irmãos na fé. Treinaram-se centenas de jovens, com a ajuda dos americanos e dos sauditas, para ir combater no Afeganistão.

Hoje, alguns destes grupos estão mais bem armados que a nossa polícia. É um grande desafio.

Se um muçulmano o abordasse a pedir para ser baptizado, como lidaria com a situação?
Hoje em dia, com muito cuidado, com muita cautela, porque pode ser uma armadilha. É algo que já nos aconteceu, pessoas que nos procuram nesse sentido, para causar problemas.

A nossa tarefa, enquanto cristãos, não é de tentar converter pessoas, mas sermos testemunhas da nossa fé, mostrar o que significa para nós sermos cristãos neste meio em particular. Nesse sentido, muito do que somos e fazemos se reflecte nas instituições que temos. A Igreja é muito forte nas áreas da educação e da saúde, por exemplo, servindo cristãos e muçulmanos, sem distinção.

Sejamos claros. A questão da conversão é muito sensível para os muçulmanos. Quando se aprovou a lei contra a blasfémia quiserem aprovar outra, que dizia que se um muçulmano abandonasse a sua religião seria executado. Não se tornou lei, mas mostra que o pensamento está presente.

Tem-se falado muito da lei contra a blasfémia, que pune com pena perpétua ou de morte a blasfémia contra o Alcorão ou contra Maomé. Tem sido feito alguma coisa para acabar com a lei ou pelo menos para reduzir o seu impacto?
Desde que a lei foi introduzida que os cristãos têm protestado. É uma questão sensível, mas os muçulmanos estão finalmente a perceber que não se trata apenas de abolir a lei, é também uma questão de mudar a forma como ela está redigida. Precisamos de garantias para evitar abusos, porque é isso que tem acontecido desde o início. Há pessoas que abusam da lei para se vingarem de outras. Agora, cada vez mais, fala-se em introduzir garantias para evitar que isto aconteça.

Por exemplo, o Governo aprovou uma lei a dizer que a primeira coisa a fazer nestes casos é um exame psicológico ao acusado, porque tem havido casos de pessoas acusadas que são deficientes mentais.

E isso já seria uma vitória?
Seria alguma coisa, pelo menos! Porque as coisas estão más, a lei está a ser abusada.

OHá muitos cristãos presos por causa desta lei, mas não são só cristãos…
A lei afecta todos! Há mais muçulmanos na prisão por blasfémia do que cristãos.

Nunca ninguém foi executado ao abrigo da lei, mas a mera acusação pode ser um perigo, não é?
É verdade. Todas as mortes que houve têm sido extrajudiciais, pessoas linchadas antes de conseguirem provar a sua inocência.

E por vezes mesmo depois de absolvidas…
Sim, isso também já aconteceu. Há uns anos houve um caso de um rapaz cristão de 13 ou 14 anos, acusado de ter escrito palavrões na parede de uma mesquita. Quando o caso chegou ao Supremo comprovou-se que era praticamente analfabeto, era impossível ter escrito o quer que seja. Foi absolvido, mas os fanáticos continuavam a pedir a sua morte. Houve uma tentativa para o matar, quando estava com dois tios. Um dos tios morreu e ele e o outro ficaram feridos. Receberam asilo na Alemanha.

Não é a única, mas um dos casos mais famosos é da Asia Bibi, que foi condenada à morte. Tem havido muita pressão do Ocidente para ela ser libertada. Esta pressão pode ser contraproducente?
Pode, porque temos de perceber que não é só o Governo que está em jogo. O Governo é fraco. Este tipo de fanatismo é muito forte, ao ponto de que se for juiz será ameaçado e pensará duas vezes antes de anular uma decisão de um tribunal menor.

Há uns anos tivemos uma deputada, uma grande senhora, muçulmana, que disse que ia tentar abolir a lei da blasfémia. Quando os fanáticos souberam começaram a ameaçá-la. Tiveram de a nomear embaixadora para a tirar do país. É assim. O Governo até tem o poder de tomar a decisão, mas também teme a reacção.

Porque é que ela continua presa? É uma questão legal ou política?
É uma questão política. E é o medo dos fundamentalistas.

Acredita que virá a ser libertada?
Isso seria especulação, mas os esforços para a libertar continuam e não vão parar.

Se a situação não melhorar, ou se piorar, há futuro para os cristãos no Paquistão?
Alguns já pensam que não têm futuro no Paquistão. Algumas centenas de cristãos já foram para o Sri Lanka, porque há facilidade em arranjar vistos. Outras centenas para a Tailândia. Pessoalmente, acho que não devíamos abandonar a esperança.

Como é que se pode ajudar os cristãos paquistaneses?
Se está a falar de ajuda financeira, através da fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), a convite da qual me encontro em Portugal.

Esse dinheiro chega ao terreno?
Sem dúvida! No Paquistão a AIS tem sido um grande benfeitor há muitos anos. Em todas as áreas pastorais têm-nos ajudado sempre e continuam a ajudar.

As orações ajudam?
Ajudam. Fiquei muito emocionado quando fui falar em Guimarães, pela fé das pessoas – uma fé viva – e a sua preocupação. E muito comovente ver as pessoas a dizer-nos que rezam e que vão continuar a rezar e é algo que levarei de volta para o nosso povo.