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Iémen a caminho de ser uma nova Síria?

25 mar, 2015 • Filipe d'Avillez

Os rebeldes xiitas, que já ocupam a capital Sanaa, estão a ameaçar ocupar Aden. Este é um conflito que movimenta interesses da Arábia Saudita ao Egipto, passando pelo Irão.

Iémen a caminho de ser uma nova Síria?
O Iémen corre o risco de seguir as pegadas da Síria, com a sua situação interna a deteriorar-se muito nos últimos dias. Mas o conflito não diz apenas respeito aos habitantes do pequeno país, que está a tornar-se um palco de guerra crucial para o conflito regional entre xiitas e sunitas.

Actualmente há vários grupos em conflito entre si, o que torna a situação difícil de compreender.

Os principais actores no terreno são, neste momento os houthis, um grupo rebelde xiita, oriunda sobretudo do Norte. Os xiitas são um terço dos habitantes do Iémen, mas governaram o Norte durante cerca de mil anos, até à unificação do país. Apoiados por alguns elementos das forças de segurança e pelos apoiantes do antigo Presidente Ali Abdullah Saleh. Mais importante que isso, contudo, é o apoio do Irão, a superpotência xiita do Médio Oriente.

Desde o início do ano os houthis ocuparam grande parte do país, incluindo a capital, Sanaa. Nos últimos dias o grupo aproximou-se também de Aden, a segunda mais importante cidade do país, onde o Presidente estava refugiado. Consta que o chefe de Estado já abandonou a cidade e decorrem conflitos entre os rebeldes e o exército para controlar Aden.

Mas o avanço dos xiitas é disputado pela maioria sunita da população, que reside sobretudo no Sul do país. As tribos sunitas recusaram-se a aceitar a ocupação de Sanaa e a instituição de um conselho presidencial por parte dos houthis.

OCom o apoio crucial da Arábia Saudita, que faz fronteira com o Iémen, e organizados em milícias populares, grande parte dos sunitas apoiam o Presidente Abdrabbuh Mansour Hadi, ainda reconhecido pela comunidade internacional como legítimo líder do Iémen. Hadi conta ainda com o apoio das forças armadas e de facções da polícia.

Um mapa complexo
Este cenário já bastaria para perceber que o Iémen está a ser usado como palco para uma luta regional entre o Irão a Arábia Saudita pela conquista de influência no Médio Oriente. Os xiitas são minoritários no mundo islâmico, mas actualmente o Irão exerce grande influência sobre vários países da região, incluindo o Iraque, o Líbano e as partes da Síria e do Iémen controladas pelas forças do regime de Bashar al-Assad, no primeiro caso, e pelos houthis, no segundo.

Mas o conflito torna-se ainda mais complexo com a participação de grupos sunitas radicais que se opõem tanto ao regime de Hadi como aos houthis e, mesmo aqui, não há apenas um grupo jihadista, mas dois.

Em primeiro lugar, e com maior influência, existe a Al-Qaeda na Península Arábica. Este ramo local da rede terrorista é das mais temidas pela sua capacidade organizativa, tendo assumido recentemente a responsabilidade pelos ataques ao jornal satírico francês "Charlie Hebdo", por exemplo. Mas sabe-se que o autodenominado Estado Islâmico, que se opõe à Al-Qaeda, também está a tentar implantar-se no país, tendo assumido, na semana passada, a responsabilidade por atentados suicidas contra duas mesquitas xiitas em território dominado pelos houthis, que resultaram em 140 mortos.

O Os jihadistas, tanto o Estado Islâmico como a Al-Qaeda, procuram depor o regime de Hadi e esmagar os xiitas, que consideram hereges. Uma vitória no Iémen permitiria ainda atingir directamente a Arábia Saudita, cujo regime consideram corrupto.

De momento, porém, a Arábia Saudita está mais preocupada com a presença dos houthis na sua fronteira, entendendo-a como uma ameaça directa à sua segurança interna, controlada a partir de Teerão.

Para completar o complexo cenário, os americanos não dispõem de forças no terreno, mas têm armado o exército iemenita para o ajudar a combater os jihadistas.

A importância do Iémen
Apesar de parecer um território remoto, no contexto do Médio Oriente, e de merecer pouca atenção mediática, o Iémen tem na verdade uma grande importância estratégica. Juntamente com a Somália, que está num estado caótico, o Iémen forma o estreito de Aden, que liga o Mar Vermelho ao Oceano Índico.

A instabilidade no Iémen ameaça, por isso, a navegabilidade do estreito, já de si posto em causa pela pirataria sedeada na Somália. Se os navios comerciais deixarem de poder usar o estreito de Aden torna-se-lhes inútil atravessar o Canal de Suez, o que transforma o Egipto numa parte interessadíssima no assunto. Cairo já afirmou que não permitirá que os seus interesses sejam lesados pelo conflito no Iémen.

Embora o Iémen não seja um produtor grande de petróleo, o estreito de Aden serve também para escoar cerca de 3,4 milhões de barris por dia, o que, a ser posto em causa, teria repercussões a nível da economia mundial.