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Porque é que os extremistas islâmicos fazem guerra contra a arqueologia?

06 mar, 2015 • Filipe d'Avillez

Desde a destruição dos budas gigantes de Bamiyan, no Afeganistão, em 2001, à recente razia da cidade antiga de Nimrud, no Iraque, o islão fundamentalista vai acumulando crimes contra o património arqueológico e cultural da humanidade.

Porque é que os extremistas islâmicos fazem guerra contra a arqueologia?
Porque é que os extremistas islâmicos fazem guerra contra a arqueologia?
O grupo terrorista Estado Islâmico começou, na quinta-feira, a destruir a cidade de Nimrud, uma jóia arqueológica do Norte do Iraque. O ministério iraquiano do Turismo e Antiguidades anunciou, na sua páginal oficial do Facebook, que os jihadistas "tomaram de assalto a cidade histórica de Nimrud e começaram a destruí-la com 'bulldozers'".
A anunciada destruição da cidade histórica de Nimrud, no Iraque, pelo autoproclamado Estado Islâmico, está a chocar o mundo e já foi classificado como um crime de guerra pela Unesco.

Mas o acto levado a cabo pelos terroristas do autoproclamado Estado Islâmico, uma semana depois de ter sido difundido um vídeo que mostrava a destruição de esculturas pré-islâmicas em Mossul, também no Iraque, surge no seguimento de muitos outros atentados contra património histórico.

Em Agosto de 2014, pouco depois de terem ocupado a cidade iraquiana de Mossul, os militantes do Estado Islâmico destruíram o que se dizia ser o túmulo do profeta Jonas, um local reverenciado por cristãos, judeus e muçulmanos.

Na já longa guerra entre sunitas e xiitas no Médio Oriente, são incontáveis os locais de culto xiitas destruídos, incluindo a famosa mesquita da cúpula dourada, em Samara, no Iraque, e vários santuários da corrente sufi do islão também não resistiram à censura do Estado Islâmico.

Em Fevereiro, o EI divulgou um vídeo que mostra um museu em Mossul a ser destruído

Algumas igrejas históricas na região do vale do Nínive, que abarca Mossul e onde vive a maioria da população cristã do Iraque, também já foram ou destruídas ou vandalizadas.

Os cristãos desta região são de etnia assíria, uma antiga civilização, mencionada na Bíblia como uma das maiores potências do Médio Oriente (deixou um rico legado arqueológico e cultural).

Actualmente os assírios são todos cristãos, mas cidades como Nimrud estão repletas de iconografia pagã, pré-cristã e, por isso, pré-islâmica.

É precisamente essa iconografia, mais que o valor histórico dos locais, que ofende as sensibilidades do Estado Islâmico e que serve de justificação para arrasar a cidade, com recurso a "bulldozers".

Para além de condenar o paganismo ou politeísmo, a religião islâmica proíbe qualquer representação de seres vivos conscientes, com particular destaque para Deus ou Maomé, mas incluindo animais e pessoas. É por isso que as caricaturas de Maomé são consideradas particularmente ofensivas para os muçulmanos e é também por essa razão que a arte islâmica é dominada sobretudo por figuras geométricas.

Os budas e o choque
Esta visão torna difícil o convívio entre muçulmanos fundamentalistas e património arqueológico e cultural que viole estes preceitos, mesmo que anteceda por milhares de anos, como é o caso de Nimrud, as próprias proibições.

Destruição das estátuas de Buda no Afeganistão chocou o mundo. Foto: DR

O primeiro caso que despertou a atenção do mundo para este facto foi a destruição, em Março de 2001 das gigantescas estátuas de Buda em Bamiyan, no Afeganistão, por parte dos talibãs. A comunidade internacional ficou em choque e o caso tornou-se exemplo da intolerância religiosa dos talibã.

A destruição de Nimrud, e das enormes estátuas de homens e animais que continha, é mais uma baixa na guerra que se trava no Médio Oriente. Neste caso trata-se de vandalismo intencional, mas ao longo dos anos de guerra na Síria, já são muitos os locais destruídos como efeito secundário dos combates, incluindo a parte histórica da cidade de Alepo e todo o centro da cidade de Homs.

Não obstante o horror manifestado pela comunidade internacional perante estas atrocidades, os defensores do Estado Islâmico não desarmam e invocam o exemplo de Maomé para justificarem as suas acções.

Numa mensagem publicada esta sexta-feira no Twitter, um apoiante do Estado Islâmico recorda "Maomé destruiu 360 antigas estátuas/ídolos em Meca num só dia. Duas delas eram estátuas dos profetas Abraão e Ismael. Por isso o que o EI fez não é mais do que repetir a acção do profeta", escreve.