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Entrevista

Zak Ebrahim, o filho de um terrorista que escolheu a paz

23 fev, 2015 • Inês Alberti

O pai de Zak assassinou um rabino e ajudou a planear os ataques de 1993 ao World Trade Center. Zak escolheu um caminho diferente e tornou-se activista pela paz. Em entrevista à Renascença conta a sua história.

Zak Ebrahim, o filho de um terrorista que escolheu a paz
Zak Ebrahim nasceu nos Estados Unidos em 1983. Na altura, nada fazia adivinhar que a sua família (uma mãe americana e um pai egípcio, ambos muçulmanos) viria um dia a estar envolvida em operações terroristas.

Quando Zak tinha apenas sete anos o seu pai, El-Sayyid Nosair, foi preso por assassinar a tiro o rabino Meir Kahane, líder da Liga de Defesa Judaica (LDJ), organização radical.

Anos mais tardes, a partir da prisão, El-Sayyid Nosair ajudou a planear os ataques de 1993 ao World Trade Center, em Nova Iorque. O pai de Zak cumpre prisão perpétua nos Estados Unidos.

Apesar de ter crescido num ambiente carregado pela violência e o extremismo, Zak Ebrahim não deixou que isso o definisse e dedicou a sua vida à paz. Tornou-se activista contra o terrorismo e escreveu o livro "O filho do terrorista: uma história de escolha", editado em 2014. A história de Zak tornou-se viral quando o activista participou nas conferência Ted Talks com o tema "Sou o filho de um terrorista. Foi assim que escolhi a paz".

"A política externa dos EUA está muito focada em matar terroristas em vez de prevenir que as pessoas se tornem terroristas em primeiro lugar. E isso tem que mudar", diz em entrevista telefónica à Renascença.

Quando o seu pai foi preso pela primeira vez, o Zak tinha apenas sete anos. Na altura teve noção daquilo que o seu pai fez?
Inicialmente não. Nos primeiros meses a minha mãe tentou-nos proteger dos media e das notícias e de tudo o que se passava à volta da prisão do meu pai. A primeira vez que percebi o que se passava foi quando fomos visitar o meu pai à prisão pela primeira vez. Ele dizia estar inocente. E nós acreditámos nele.

O Nesse ano o Zak andava na escola. Os seus colegas ou os pais deles sabiam quem era o seu pai? Foi prejudicado por isso?
Inicialmente sabiam. Na altura da prisão do meu pai, a minha escola em Nova Jérsia era uma escola pública e houve uma reacção muito negativa por parte da comunidade sobre o que meu pai tinha feito e por isso não nos sentimos seguros em voltar para essa escola.

Por acaso, tivemos sorte quando uma escola privada muçulmana em Nova Jérsia nos ofereceu bolsas para a frequentarmos. Fiquei muito agradecido porque não sabíamos para onde ir.

Como era uma escola muçulmana, toda a gente sabia quem o meu pai era e o que ele tinha feito e por isso recaiu muita atenção sobre mim por causa das suas acções.

Mas a minha família mudou de sítio tantas vezes depois disso que as pessoas não faziam ideia da minha relação com o meu pai e o "bullying" que sofria deixou de estar relacionado com ele.

Qual foi a principal razão para estarem sempre a mudar?
Não mudámos por causa da família do meu pai. Recebemos muitas ameaças de morte depois do assassinato do rabino, líder da LDJ, que, na altura, os Estados Unidos consideravam a maior organização terrorista a operar dentro dos EUA. 

Muita gente viu o que o meu pai fez como um acto em que um extremista mata outro extremista.

Recebemos ameaças de morte dos membros da LDJ que queriam vingar-se em nós, nas crianças, do que o meu pai fez. Essa foi a razão principal pela qual começámos a mudar-nos – a minha mãe queria assegurar-se que nós estávamos em segurança.

O resto da família não teve uma má reacção em relação ao vosso afastamento?
Como o meu pai disse que estava inocente, todas as pessoas do lado dele da família acreditavam que ele estava inocente. Eles não são extremistas, eles nunca fizeram parte da ideologia em que o meu pai acreditava. Ele próprio não tinha estas crenças extremistas até vir para os Estados Unidos.

Como é que, mesmo estando rodeado por essa influência do seu pai, o Zak começou a pensar de forma diferente?
Uma das coisas mais importantes que é preciso fazer para radicalizar alguém é isolar essa pessoa de toda a gente. É preciso fazê-la acreditar que diferentes grupos de pessoas – sejam grupos baseados na sua religião, na sua raça ou orientação sexual – são pessoas más e são o inimigo e que nunca podemos interagir com eles.

A isolação é um dos ingredientes mais importantes para transformar alguém num extremista.

E quando eu comecei a crescer e a interagir com estes grupos, eu comecei a aperceber-me que muitas das coisas que me foram ensinadas não eram verdadeiras.

Por exemplo, quando eu fiz o meu primeiro amigo judeu. Em toda a minha vida tinha sido ensinado que os muçulmanos e os judeus são inimigos e, no entanto, ali estava eu. Três dias depois de conhecer este rapaz e de começarmos a ficar amigos descobri que ele era judeu. Tive um sentimento de orgulho, de ter conseguido fazer algo que nunca tinha sido feito.

Obviamente que mais tarde percebi que havia muitos muçulmanos e judeus que eram amigos. Mas este foi um dos primeiros momentos em que pensei que se calhar a ideologia que tinha aprendido desde criança estava incorrecta.


A conferência de Zak Ebrahim nas TED Talks

A interacção com pessoas de origens diferentes foi a chave para quebrar os preconceitos que tinha enquanto criança?
Absolutamente. Por isso é que acho que sempre que nos deparamos com experiências tão difíceis e horríveis, como por exemplo os horríveis ataques em Paris, é importante não nos tentarmos separar daqueles que são diferentes de nós. É importante que as pessoas se unam e interajam umas com as outras porque essa é uma das melhores maneiras para quebrar com os estereótipos que muitas vezes temos sobre os outros.

Temos que perceber que somos todos seres humanos antes da nossa religião ou da nossa raça ou do nosso género. Só uma pequena percentagem de pessoas é que se agarra com tanta força às suas crenças que estão dispostas a ir até limites horríveis para tentar forçar as pessoas a acreditarem no que elas acreditam.

Também porque sofri muito de "bullying" sabia o que era ser uma vítima por coisas sobre as quais eu não tinha controlo e, quando cresci e comecei a tomar as minhas próprias decisões e a interagir com pessoas sobre quem tinha todos estes maus estereótipos, percebi que não queria fazer os outros se sentirem como me fizeram sentir.

E isso foi uma lição muito importante na minha vida: aprender a ter empatia. E isso também foi muito importante para me fazer sair da ideologia em que eu cresci.

Disse que a isolação era um factor muito importante para a radicalização. Pensa que as crianças da Síria e do Iraque, que vivem sob controlo ou ameaça dos terroristas do Estado Islâmico, podem conseguir seguir um caminho diferente?
As crianças que estão rodeadas por familiares que são membros de grupos como o Estado Islâmico são as crianças mais importantes em que temos que concentrar os nossos esforços.

A política externa dos EUA, por exemplo, está muito focada em matar terroristas em vez de prevenir que as pessoas se tornem terroristas em primeiro lugar. E isso tem que mudar. Precisamos de pensar mais em diplomacia preventiva em vez de ir para algum lugar e tentar dominar as pessoas com as nossas forças armadas. Muitas vezes isso só cria mais isolação e radicalização. Grupos como o Estado Islâmico prosperam com a instabilidade, prosperam com a raiva, o medo e o caos.

Infelizmente muitas pessoas inocentes são mortas nos ataques dos Estados Unidos e isto faz com que pessoas que normalmente nunca se juntariam a um grupo como o Estado Islâmico se juntem porque se querem vingar.

A violência cria uma motivação para as pessoas se juntarem a grupos extremistas?
Absolutamente. Quando criamos tal instabilidade, grupos como o EI passam a ser os únicos que dão dinheiro às pessoas para alimentarem as suas crianças, para sobreviverem. Essas crianças estão mais susceptíveis a tornarem-se radicalizadas, mas também são as pessoas que temos de tentar influenciar.

Não sei qual é a melhor maneira de influenciar estas crianças nesse sentido, mas sei, através da minha experiência pessoal, que há centenas de pessoas por todo o mundo que ao depararem-se com circunstâncias tão terríveis conseguem sair disso sem permitir que essas circunstâncias definam quem eles vão ser.

Sei que há crianças neste momento no Iraque e na Síria e na Líbia que estão a lidar com as piores coisas mais inimagináveis que vão pegar nestas experiências e vão tentar fazer do mundo um lugar melhor.

Quando vemos famílias que são vítimas de actos terroristas à volta do mundo, as pessoas não querem ser definidas por essas experiências negativas, elas querem pegar nessas experiências e fazer algo positivo com elas. E isso é porque elas são humanas e isso é algo que todos temos em comum. E é isso que me dá esperança.

Uma das coisas que o Zak mais defende é que "todos têm escolha". Acredita que estas crianças, apesar de estarem rodeadas por violência e ideais radicais, podem sair destes ambientes.
Acho que há esperança. Acho que nem toda a gente vai fazer essa escolha, acho que nem toda a gente pode fazer essa escolha. Infelizmente, as pessoas podem ser postas em situações onde não têm outra saída.

Esta é uma das razões porque decidi começar a falar publicamente. Não só para sublinhar o facto de que cresci nesta ideologia mas decidi promover a paz, mas também porque quero chamar a atenção para aquelas crianças e famílias que têm ente queridos envolvidos em operações extremistas.

O nosso enfoque deve estar nestas pessoas: não em destruir estes grupos extremistas, mas em tentar ajudar as pessoas afectadas por eles.

Se pudesse dizer o que quer que fosse às crianças do Médio Oriente que vivem sob a ameaça do Estado Islâmico, o que diria?
Que as coisas não vão ser sempre assim. Que neste momento eu sei que elas se sentem isoladas e sozinhas e que as coisas nunca vão mudar, que vão ser sempre assim tão difíceis… Mas a verdade é que o mundo está sempre a mudar, nada permanece igual. Elas têm o poder de direccionar para onde a sua vida pode ir e essa é a mensagem mais importante que eu posso transmitir.