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Egipto. "Houve gritos em todas as casas" da aldeia de treze cristãos decapitados

19 fev, 2015

Dos 21 cristãos coptas mortos pelo Estado Islâmico na Líbia, treze eram de El-Aour. "Estou orgulhoso dele. É um mártir por Cristo", diz o irmão de um.

Egipto. "Houve gritos em todas as casas" da aldeia de treze cristãos decapitados
A decapitação de 21 homens egípcios, todos cristãos coptas, pelo grupo terrorista Estado Islâmico, chocou o mundo, mas foi sentido com particular dor em El-Aour.

Era desta pequena aldeia do Egipto, construída nas margens do rio Nilo, que vinham 13 dos 21 homens assassinados. Há um mês e meio que se rezava pelos filhos, pais e irmãos que estavam desaparecidos na Líbia, mas quando a notícia foi divulgada houve gritos e choro em todas as casas, em todas as ruas. Foi o que contou o padre local à rádio norte-americana NPR.

De imediato, a Igreja Copta tomou medidas para tentar consolar os seus filhos. Do altifalante da Igreja transmitiu-se uma homilia de Shenouda III, o homem que liderou os coptas durante mais de 40 anos e que morreu em 2012. O anterior Papa, como é conhecido o Patriarca de Alexandria, descreve as qualidades dos mártires: homens e mulheres de coragem, que amam a Deus.

Malak Shoukry entende que esta é uma boa descrição do seu irmão Yousef, que reconheceu como uma das vítimas no vídeo. "Rezei pela sua alma. Quando foi decapitado, ouvi-o a clamar 'Jesus'. Estou orgulhoso dele. É um mártir por Cristo", afirmou à NPR.

Na mesma aldeia, a 250 quilómetros do Cairo, Abraham Bashr Aziz, caminha como um morto vivo. Na verdade escapou à morte sem saber bem como. Ele estava na mesma casa que muitos dos outros que foram raptados, mas como se encontrava noutro quarto passou despercebido.

"Ouvi e vi tudo pela janela. Ouvi os gritos e ouvi-os a perguntar pelos cristãos. Eles vieram só para raptar os cristãos. Estava cheio de medo", admite. Sabe que se os terroristas tivessem sido um pouco mais insistentes na busca estaria também naquele vídeo.

Por entre o orgulho pelos mártires e a tristeza dos sobreviventes existe também uma boa dose de revolta em relação à forma como o Governo do Egipto agiu.

"Ontem veio cá o primeiro-ministro. Porquê? Não os conseguiu trazer vivos, nem sequer nos trouxe os seus corpos. Não precisamos dele para nada. É tarde demais", diz Samuel Shokr, que perdeu dois tios e um primo na matança.