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Foi radical e esteve preso. Agora, dedica-se a combater o extremismo islâmico

06 fev, 2015 • Filipe d’Avillez

Radicalizou-se nas ruas de Londres e tornou-se tolerante nos calabouços do regime militar egípcio. Esta é a história improvável de um homem que hoje se dedica a combater o extremismo. A Renascença falou com Maajid Nawaz.

Foi radical e esteve preso. Agora, dedica-se a combater o extremismo islâmico

Maajid Nawaz deixou-se cativar pelo islão radical na adolescência e passados poucos anos era já uma figura importante no movimento Hizb al-Tahrir, o primeiro grupo islâmico a reivindicar a criação de um califado que possa unir todos os muçulmanos no mundo.

Durante uma estadia no Egipto, ao serviço do grupo, foi detido e colocado numa prisão, onde passou quatro anos da sua vida, em condições deploráveis. Mas em vez de se radicalizar ainda mais, Maajid teve uma epifania e, uma vez libertado, passou a dedicar-se a combater o islão radical em todas as suas formas, através da Quilliam Foundation, que opera a partir do Reino Unido. Isto sem, contudo, abandonar a sua fé islâmica.

A história da sua vida está agora contada em livro. “Radical”, publicado pela Texto Editora, ajuda a compreender como é que os jovens se deixam enfeitiçar pelo extremismo islâmico e quais os seus perigos. Nesta entrevista, Maajid explica também qual a melhor maneira de o evitar.

No decurso da sua vida como islamita, e agora através do seu trabalho a vigiar e combater o extremismo, alguma vez encontrou referências a Portugal?
Claro que sim. Quase todos os países na Europa já apareceram, ao longo destes últimos sete ou oito anos. A situação na Europa é que onde existem muçulmanos, infelizmente, uma facção adere a estas ideologias. Realço que serão minorias, mas o nosso trabalho passa por galvanizar a maioria silenciosa contra eles. É aí que se encontra a verdadeira dificuldade.

Que um muçulmano adopte o fundamentalismo é uma coisa, mas surpreende o número de ocidentais que se convertem ao islão radical?
Não me admira, há muito que se regista essa tendência. Há 30 ou 40 anos as pessoas que eram contra a ordem estabelecida, eram atraídas pelo comunismo estalinista. Hoje é o islamismo, que se tornou o auge da ideologia contra o poder estabelecido. E por isso atrai até pessoas que não vêm de um ambiente islâmico. Vendo as coisas desta forma, o nosso desafio é tornar o islamismo tão pouco atractivo para os jovens europeus como é, actualmente, o comunismo soviético.

E como é que isso se faz?
Eu detecto cinco factores essenciais que tornam os movimentos populares. Primeiro: Há uma ideia, neste caso de impor uma versão do islão sobre toda a sociedade. O segundo factor são as narrativas ou a propaganda. A terceira são os líderes carismáticos, capazes de recrutar pessoas, pelo seu poder de persuasão. Em quarto lugar têm os símbolos e a iconografia e, por último, têm uma visão, um sonho, que neste caso é o estabelecimento de um califado. O que nós temos de fazer é desacreditar, através do activismo social, as ideias, narrativas, líderes, símbolos e sonhos dos extremistas e capturar as imaginações dos jovens com alternativas. É uma coisa muito difícil, é uma tarefa para mais do que uma geração, não é algo que vá acontecer em dez anos.

Os governos ocidentais, incluindo o português, estão agora a discutir formas de tentar combater este problema. Que sugestões faz?
Que se concentrem na prevenção mais do que a desradicalização. É mais fácil impedir as pessoas de se tornarem extremistas do que tirá-las de lá depois de se juntarem às organizações. Em segundo lugar, os Estados não devem tentar definir uma versão correcta do islão e promovê-la. Quando o fazem, os Estados ficam embrenhados em debates sectários e teológicos, e isso não é tarefa do Governo. Uma abordagem melhor, em minha opinião, é os governos trabalharem com as comunidades para reforçar os valores essenciais do contrato social, nomeadamente o secularismo, o respeito pelos direitos humanos e processo democrático e o respeito pela autonomia e liberdade individual. Esses valores, independentemente da filiação religiosa, precisam de ser reforçados e as comunidades religiosas têm de ter noção da sua responsabilidade em reconciliar as diferentes confissões e interpretações religiosas com os valores do contrato social.

Há quem diga que estes actos terroristas não têm nada a ver com o islão. Concorda?
Não. E acho que é contraproducente não identificar a ideologia islamita, porque isso vai levar a um clima ainda maior de medo e, invariavelmente, as pessoas vão começar a culpar todos os muçulmanos.

Este é um problema religioso ou político?
É uma combinação dos dois e é por isso que eu disse antes que isto tem de facto a ver com o islão. Pode não ser a ideologia da grande maioria dos muçulmanos, mas tem certamente algo a ver com o islão. Isto porque existe um grupo de pessoas que estão tão inseguros na sua própria relação com Deus, que querem forçar toda a gente a seguir a forma como eles acham que Deus quer que eles sigam a sua religião. Esta insegurança é de onde nasce o islamismo.

O seu percurso até ao fundamentalismo foi através do movimento Hizb Al-Tahrir, cujo objectivo passa por estabelecer um califado. Quando professava estas crenças, teria seguido um grupo como o Estado Islâmico?
Não. O Hizb Al-Tahrir ainda existe e actua por todo o mundo e a sua posição tem sido de não condenar os grupos como a Al-Qaeda e o Estado Islâmico, mas não concordar com a sua metodologia. Penso que a experiência falhada do Estado Islâmico devia chegar para demonstrar a todos os islamitas o que é que acontece quando se tentar criar o céu na Terra. Estas utopias teocráticas falham inevitavelmente.

Nunca pegou em armas?
Não. O Hizb Al-Tahrir funciona de duas maneiras. Uma é de preparar a opinião pública para o regresso do califado, esse era o meu papel. A segunda maneira é tentar recrutar oficiais das forças armadas, com o objectivo de incentivar golpes militares nos países de maioria islâmica, para tomar o poder. O Hizb Al-Tahrir é da opinião de que os actos terroristas dificultam a criação do califado. Até hoje, embora seja verdade que tenha contribuído para a atmosfera que conduz ao jihadismo, o grupo em si não é uma organização jihadista.

O que é que o levou a mudar de posição?
Foi um processo longo de cinco anos, mas basicamente, quando fui preso no Egipto a Amnistia Internacional adoptou-me como prisioneiro de consciência. No livro eu digo que onde vai o coração, a mente pode seguir. E esse gesto tocou o meu coração. Passei aqueles anos na prisão a estudar. Reli o livro “Triunfo dos Porcos”, de George Orwell, e concluí que se os meus camaradas algum dia tomassem o poder, criariam uma versão islâmica da paródia de Orwell. Percebi que estas pessoas podiam ser bem piores que aqueles que estávamos a tentar derrubar. Penso que a tomada de poder do Estado Islâmico na Síria e no Iraque demonstra bem isso.

Estas questões são apresentadas como sendo um conflito entre o Islão e o Ocidente. Não será mais importante o conflito entre o islão xiita e o islão sunita?
Mais importante que qualquer uma dessas coisas é o conflito civilizacional dentro do Islão e em todo o mundo. Actualmente, o mundo divide-se entre os que defendem a liberdade, os valores democráticos e o pluralismo, tolerância, respeito e Estado de direito, e os que defendem qualquer forma de fascismo, seja fascismo clerical, como num Estado teocrático como o Irão, seja de um Estado totalitário, como a Coreia do Norte. Não é por acaso que os dois países são vizinhos. Como tende a acontecer entre fascistas, eles têm disputas internas. Por isso actualmente os fascistas clericais do Irão estão a lutar contra os fascistas clericais sunitas no Iraque e na Síria. Mas em ambos estes campos, dos que defendem a liberdade e dos que defendem o fascismo, há muçulmanos e não muçulmanos.