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A Igreja de Inglaterra já tem uma mulher bispo. Decisão traz desafios ecuménicos

26 jan, 2015 • Filipe d'Avillez

Elizabeth Lane tornou-se esta segunda-feira a primeira mulher bispo da Igreja de Inglaterra. Líder do ramo português da Igreja Anglicana diz que a decisão é o culminar natural de um processo com 25 anos.

A Igreja de Inglaterra já tem uma mulher bispo. Decisão traz desafios ecuménicos
Elizabeth Lane foi ordenada bispo da Igreja de Inglaterra esta segunda-feira. É a primeira mulher bispo da “Igreja-mãe” do anglicanismo mundial.

A Igreja de Inglaterra não é a primeira a tomar esta decisão. Outras igrejas anglicanas já o fizeram e o ramo americano é mesmo presidido por uma mulher. Mas sendo a “Igreja-mãe” do anglicanismo, a primeira ordenação episcopal de uma bispo reveste-se de maior significado.

É uma opção que pode afectar o funcionamento interno da Igreja Anglicana, mas também as relações ecuménicas, nomeadamente com as igrejas Católica e Ortodoxa, que não aceitam a ordenação de mulheres.

O bispo D. José Jorge de Pina Cabral, o líder da Igreja Lusitana, ramo português do Anglicanismo, explica algumas destas implicações e afirma que a ordenação vai trazer dificuldades mas também desafios nas relações ecuménicas.

Elizabeth Lane será consagrada esta segunda-feira. Esta não é uma ordenação episcopal qualquer...
Não é uma ordenação episcopal qualquer na Igreja de Inglaterra, dado que efectivamente é a primeira vez que uma mulher irá ser ordenada ao episcopado na Igreja de Inglaterra, por isso abre um precedente.

Quais são os efeitos que pode ter a nível interno da Igreja de Inglaterra?
Isto no fundo é o culminar de um já longo processo que se iniciou há já 25 anos com a ordenação das primeiras mulheres. Aliás, as primeiras foram ordenadas em 94, embora a decisão tenha sido tomada em 92.

A partir daí iniciou-se todo um processo que, de certo modo, apontava para a ordenação das mulheres ao episcopado, embora tenha sido naturalmente um processo longo e que implicou discernimento teológico e bíblico.

Foi um processo bastante exigente para a própria Igreja de Inglaterra, mas ao mesmo tempo foi um processo rico de análise e diálogo, durante o qual, porém, houve um grande cuidado de criar espaço para aqueles que são uma minoria na Igreja de Inglaterra, mas que se opõem à ordenação de mulheres ao episcopado.

De qualquer das maneiras é um marco muito significativo.

A Igreja Lusitana depende directamente da Igreja de Inglaterra?
A Igreja Lusitana tem os seus próprios órgãos de decisão, neste caso o sínodo diocesano. O que acontece é que grandes decisões, que têm a ver com aspectos de alteração, por exemplo a nível litúrgico, por exemplo, e de organização interna, dependem da autorização do metropolita da Igreja Lusitana, que é o Arcebispo de Cantuária, dado que a Igreja Lusitana é aquilo que no contexto da Igreja Anglicana se chama uma diocese extra-provincial.

Isso significa que a Igreja Lusitana também pode ordenar mulheres ao episcopado agora?
Ainda não. A Igreja Lusitana, no seu sínodo de 1991, aprovou a ordenação de mulheres ao ministério ordenado, não se tendo colocado então a questão da ordenação ao episcopado.

Sendo a Igreja de Inglaterra a Igreja-mãe do Anglicanismo, esta decisão poderá encorajar outras igrejas a darem também este passo e promoverem a ordenação de mulheres ao episcopado, como já acontece noutras igrejas na Comunhão Anglicana, nomeadamente nos EUA, Canadá, Irlanda e Escócia.

Mas no caso concreto da Igreja Lusitana, e aquando da minha eleição [25 de Abril de 2013], efectivamente só foram consideradas propostas de candidatos masculinos.

Existem, contudo, presbíteras na Igreja Lusitana...
Temos uma mulher presbítera e temos várias diáconas. Portanto já temos essa vivência e essa experiência da ordenação de mulheres ao ministério e podemos considerar ter sido uma bênção e algo muito importante na missão da própria Igreja ao longo destes anos.

Estas decisões levaram a grandes discussões e divisões na Igreja de Inglaterra. A nível interno da Igreja Lusitana estas divisões também se fazem sentir?
Sendo a Igreja de Inglaterra uma Igreja de Estado, é perfeitamente natural que no seu seio existam diferentes sensibilidades e visões, que depois se traduzem na existência desses grupos que neste caso se opõem, embora sejam de facto uma pequena minoria. Até porque houve um cuidado em criar salvaguardas para os que se opõem a esta situação de terem a supervisão de uma mulher.

No seio da Igreja Lusitana, sendo uma igreja pequena, não se nota qualquer tipo de oposição. O que temos vindo a verificar, com muito agrado, é que o testemunho, o papel e o trabalho que as mulheres ao nível do ministério ordenado têm vindo a desempenhar tem criado também um contexto para um melhor entendimento e aceitação desta realidade da ordenação das mulheres.

A nível da Comunhão Anglicana, portanto a nível mundial, sabemos que a situação não é tão pacífica. Há forte divisão entre as Igrejas ocidentais e as africanas, por exemplo. A decisão da Igreja de Inglaterra pode agravar essa situação de divisão?
Espero bem que não! A decisão da ordenação das mulheres não foi propriamente um assunto de divisão ou de fractura tão intensa como aquelas que se revelam relativamente a questões de natureza da moral sexual, ou ética e bioética.

As divisões maiores que se fazem sentir na Igreja Anglicana prendem-se com os aspectos ligados à sexualidade, aí sim há efectivamente grandes oposições.

Agora, tal não significa, e agora terá de haver um exercício de diálogo e esclarecimento, e comunhão, que esta posição não venha a agravar outras divisões. De qualquer das maneiras, são decisões tomadas soberanamente pelas igrejas locais e que agora, no contexto de comunhão a nível internacional, têm de ser também analisadas.

Portanto, aqui há uma vivência da comunhão num contexto de diversidade de posições, procurando manter o que consideramos que é fundamental para a vivência dessa própria comunhão. Penso que será mais por aí.

Há aqui também um factor ecuménico. A Igreja Católica avisou que ao avançar com estas ordenações a Igreja Anglicana estaria a prejudicar as relações ecuménicas. Como é que isto afecta as relações com a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa?
Esta era uma decisão esperada e Arcebispo de Cantuária teve o cuidado de enviar uma carta aos líderes das outras igrejas, nomeadamente a Católica e a Ortodoxa, reflectindo que a Igreja Anglicana está consciente que este desenvolvimento poderá trazer dificuldades ecuménicas acrescidas naquilo a que chamou o "caminho para a comunhão".

Mas ao mesmo tempo teve o cuidado de realçar que a Igreja de Inglaterra continua disponível para o aprofundar da união, à luz deste desenvolvimento.

Neste momento o que se verifica é que a visão e a preocupação a nível ecuménico se centra noutro tipo de questões que se colocam à Igreja e que exigem um testemunho comum, como a violência, os fundamentalismos, a pobreza, todo um outro conjunto de questões, nas quais as igrejas têm dado passos muito corajosos e em conjunto.

No plano eclesiológico e sacramental penso que esta questão poderá trazer algumas exigências mas poderá também trazer um outro nível de diálogo. Ou seja, a partir do momento em que a Igreja de Inglaterra assumiu esta posição, terá também de a justificar e apresentar aos seus parceiros ecuménicos, como sempre procurou fazer, através de um diálogo teológico, sacramental e bíblico, que a justifique.

Espero que isto possa também abrir outras perspectivas de diálogo, embora estejamos também conscientes que irá trazer algumas dificuldades no caminho da união.