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Estado Islâmico, Al-Qaeda, Boko Haram. Tudo no mesmo saco?

20 jan, 2015 • José Pedro Frazão

"Aproveitam o carácter global do islão", mas "têm interesses próprios" e podem mesmo "entrar em competição". O mapa do terror, desenhado com a ajuda de Ana Santos Pinto, investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais.

Estado Islâmico, Al-Qaeda, Boko Haram. Tudo no mesmo saco?
Os recentes atentados terroristas em Paris foram reivindicados pela Al-Qaeda da Península Arábica. Na Nigéria, o Boko Haram massacra populações inocentes. Importantes porções do território iraquiano e sírio são ocupados pelo autodenominado Estado Islâmico. O terror associado ao extremismo islâmico é "difícil" de mapear, mesmo por uma especialista como Ana Santos Pinto, investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais.

"Temos pouca informação para trabalhar. Creio que, no essencial, até agora são relações de conjugação de esforços", analisa. Mas podem passar a ser de "competição".

De que falamos quando falamos da AQPA, a Al-Qaeda da Península Arábica?
De uma organização que resulta da fusão entre os grupos da Arábia Saudita e do Iémen. Tem dois objectivos. Por um lado, ao nível global, a luta contra alvos globais, contra a presença de actores como os EUA no Golfo, baseados nesta narrativa sunita conservadora do islão. Por outro lado, tem também um objectivo regional de luta contra regimes que consideram não respeitadores de princípios islamistas. Tem desencadeado um conjunto de acções terroristas nesses territórios, contra o regime ou contra as populações.

É bom lembrar que o Iémen é um estado em que o regime não controla o território, tem elevados níveis de pobreza e uma posição estratégica no golfo de Aden, que liga a Península Arábica à Africa subsariana através da Somália. É um país particularmente vulnerável à presença e à actividade de grupos terroristas e que promove esta ligação entre o Golfo, a Africa subsariana e o Sahel.

A Al-Qaeda na Península Arábica e o autodenominado Estado Islâmico são organizações rivais? Que ligações existem entre elas?
É sempre difícil "mapear" estas organizações porque temos pouca informação para trabalhar. Creio que, no essencial, até agora são relações de conjugação de esforços. Enquanto os interesses forem comuns, como a luta contra regimes no Médio Oriente ou alvos ocidentais, estas organizações tendem a funcionar de uma forma articulada. Só que no futuro estas relações podem passar para uma lógica de competição.

Do que nós conseguimos perceber até agora do autodenominado Estado Islâmico, ele assenta essencialmente numa estratégia de controlo do território. Procura o apoio das populações, controlo de recursos financeiros através das explorações de petróleo, raptos, assaltos, extorsões, etc..

A Al-Qaeda tem uma forma de funcionamento diferente. Tem procurado uma acção mais descentralizada, mais orientada para alvos ocidentais, seja no Médio Oriente, seja fora dele. Se estas duas organizações – Estado Islâmico e Al-Qaeda – passarem a orientar-se para os mesmos alvos, a competir pelo mesmo território e pelos mesmos recursos, poderemos deixar de verificar interesses comuns e uma hipotética articulação de acções. E passamos a ter uma luta pelo poder regional entre estas duas organizações. Mas é muito difícil neste momento fazer este mapeamento e saber o que são acções concertadas ou individuais.

Essas rivalidades podem estar na base na instabilidade em alguns países, nomeadamente na "cortina" do Mediterrâneo onde eclodiu a Primavera Árabe?
A Al-Qaeda tem também um ramo na zona do Magrebe, que tem desencadeado um conjunto de acções no sul da Argélia, em relação à exploração de recursos petrolíferos, como também no caso da Líbia por todo o Sahel. Esses movimentos estão na origem de um conjunto de acções que provocam instabilidade e insegurança e um crescente nível de ameaça para as populações e para os regimes.

Daqui exporta-se para um nível regional mais alargado, incluindo o Médio Oriente, na zona do Iraque e da Síria. Depois, de um carácter regional passamos para um nível internacional global, em que existe uma acção de grupos, individualizados ou concertados com uma hierarquia. Isso também é difícil de verificar. Todos eles funcionam numa lógica de articulação ou pelo menos de conjugação de esforços.

E o Boko Haram tem ligações a estes grupos?
Essas ligações podem existir do ponto de vista dos interesses. Falamos do Boko Haram na Nigéria como do Al-Shabaab na Somália. Ou da Al-Qaeda no Magrebe islâmico ou na Península Arábica. Todos eles têm um objectivo geral: a implementação de um regime conservador com a aplicação da "sharia" (a lei islâmica).

Do ponto de vista operacional, dos alvos e da estratégia, ganham muitas vezes um carácter particular, ligado ao contexto de cada um deles. Se olharmos para a geografia, percebemos que existe uma linha de continuidade que permite um fluxo de indivíduos, de guerrilheiros, que podem ter uma actividade partilhada, desde logo ao nível da formação e de estratégias para alcançar estes objectivos.

Estamos a falar de organizações diferentes que se podem basear numa narrativa comum, aproveitam o carácter global do islão presente em muitas comunidades. Mas estamos a falar apenas da exploração desta narrativa. Todos estes grupos têm interesses próprios. Têm estratégias próprias, são actores que vivem por si que podem, eles mesmos, entrar em competição.