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Dominicanas recordam a menina rica que se fez pobre, por amor aos pobres

09 jan, 2015 • Ângela Roque

Dominicanas de Santa Catarina de Sena esperam que o ano jubilar, que agora assinalam, dê novo impulso ao processo de canonização da fundadora, e que mais gente fique a conhecer a vida e obra de Teresa de Saldanha.  

Dominicanas recordam a menina rica que se fez pobre, por amor aos pobres
O Ano Jubilar das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena tem início este domingo.

Até 2016 várias iniciativas vão assinalar os 150 anos da Congregação e os 100 anos da morte da fundadora. Divulgar quem foi e o que fez Teresa de Saldanha é um dos objectivos das comemorações, explica a irmã Rita Nicolau: “Queremos que ela seja mais conhecida, por isso é que é importante haver estes momentos fortes, estes jubileus, estes anos de graça, em que nós divulgamos mais a sua vida, a sua missão, o seu carisma e a sua obra”.

A actual madre geral da Congregação espera que durante este Ano Jubilar possa haver novidades no processo de canonização: “Estamos à espera que este ano seja reconhecida a heroicidade das suas virtudes, depois será considerada venerável, e esperamos que venha um milagre”.

A irmã Rita Nicolau acredita que é uma questão de tempo: “Ela já concede muitas graças a muita gente. Está sepultada no cemitério de Benfica e ali acorrem muitas pessoas desde a sua partida, há 100 anos, até hoje, ininterruptamente. É uma pessoa que viveu e morreu com fama de santidade”.

“Fazer o bem sempre e onde seja possível” é o lema desta Congregação que nasceu na clandestinidade, mas já com um claro fim social, caritativo e evangelizador. Teresa de Saldanha pertencia a uma família abastada, mas indignava-a a pobreza e exploração que atingia muitas crianças e muitas mulheres do seu tempo. Quis fazer-se pobre, por amor aos pobres.

A madre geral explica que “o início da Congregação é 1866 e a primeira casa que abriram foi em Alfama, que era o coração da pobreza de Lisboa. Havia ali muitas fábricas e ela preocupava-se muito com as meninas operárias que viviam em condições muito desumanas, não sabiam ler nem escrever, não tinham catequese. Preocupava-a muito a situação da parte feminina da sociedade”.

A Congregação abriu várias escolas sociais para as crianças pobres, hospitais e asilos: “Eram os chamados dispensários, para ajudar os filhos de pais pobres. Pesavam-nos, davam-lhes alimentos e medicamentos, ajudavam as mães a tratar das crianças. Portanto, eram os centros de saúde das crianças pobres”.

Século e meio depois as Irmãs dominicanas continuam a ter uma presença importante em Portugal. São cerca de 150 com várias casas de norte a sul do país: “Onde eu moro, por exemplo, que é o Lar Madre Teresa de Saldanha, para meninas com problemas sociais. Temos na Guarda, em Portimão, na Madeira. Temos uma obra social para velhinhas em Extremoz”, lembra a irmã Rita.

No Convento dos Cardaes, no Bairro Alto, em Lisboa, continuam a acolher mulheres cegas e deficientes psíquicas. Dão catequese nalgumas paróquias, e visitam idosos e doentes, como fazia a fundadora: “Mantemos essa presença junto dos doentes, através das visitas, da consolação e da escuta. Há muita gente desamparada, muitos velhinhos solitários que apreciam muito a nossa presença e a nossa visita”.

Depois da Primeira República, em 1910, as ordens religiosas foram de novo expulsas, o que acabou por levar a congregação a expandir-se para outros países, como a Espanha e a Bélgica, onde apoiaram órfãos e soldados durante a Primeira Guerra Mundial. Em 1959 partiram Angola e Moçambique. Mais recentemente, em 1999, foram para a Albânia, e em 2004 para Timor Leste. A irmã Rita acredita que vão continuar a partir: “Há muitos sítios do mundo que ainda não conhecem a vida religiosa, nem Jesus Cristo, e eu creio que este Papa nos tem desafiado a partir para as periferias. Estamos a viver o ano da vida consagrada, e nós queremos de facto continuar a ir para as periferias onde faz falta este sorriso de Deus junto das pessoas”.

A Eucaristia de abertura do Ano Jubilar está marcada para as 11h00 deste Domingo, dia 11, na Igreja de São Domingos, em Lisboa. Bem perto da Rua das Portas de Santo Antão, onde nasceu Teresa de Saldanha. No início de 2016 haverá uma grande celebração internacional em Fátima.

A entrevista à irmã Rita Nicolau vai ser transmitida no programa “Princípio e Fim”, da Renascença, a partir das 23h30, este domingo.