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Quando a “Kalashnikov” é o silêncio e a oração

09 jan, 2015 • Rosário Silva

Diz que tinha tudo. Mas queria mais. Marta Lages encontrou-se no carisma contemplativo da Ordem da Imaculada Conceição.

Quando a “Kalashnikov” é o silêncio e a oração
“No meio da confusão e da loucura que era a minha vida, tinha tudo. Um emprego, muitos amigos, muito trabalho e projectos” começa por contar à Renascença, Marta Lages. Natural de Évora, licenciada em Educação de Infância, aos 38 anos está a poucas horas de dar mais um passo na forma de vida que escolheu para si: a tomada de hábito para abraçar a vida contemplativa.

No ano em que se celebra a Vida Consagrada, a comunidade das Monjas Contemplativas da Ordem da Imaculada Conceição, em Campo Maior, recebe de braços abertos esta noviça que, ao andar pelos caminhos de Santiago, descobriu que, afinal, tudo o que tinha era pouco para o muito que queria.

“Esse tudo não me chegava, apesar de ser membro activo na minha paróquia e ter uma vida profissional preenchida. Deus pedia mais” recorda quem já tinha actividade intensa na comunidade cristã, com os escuteiros católicos na primeira linha.

A mudança foi radical. Surpreendeu muitos mas fez outros tantos orgulhosos. A 5 de Janeiro de 2014, entrou como Postulante para a Ordem da Imaculada Conceição,fundada por Santa Beatriz da Silva e que em Portugal tem duas comunidades monásticas em Campo Maior e perto de Viseu.

Depois da agitação de uma vida muito dedicada aos jovens, é no silêncio e na oração que, garante, “vive feliz”. Do ano que deixa para trás e no aprofundamento da vida espiritual, ficam dias de grandes descobertas e riqueza espiritual.

Silêncio orante, trabalho e recreio
O dia-a-dia da comunidade religiosa é pautado pela simplicidade. O sino toca às seis da manhã. Meia hora depois as monjas iniciam a labuta com a oração litúrgica de laudes e Eucaristia.

A sua actividade contempla, para além da oração, os trabalhos domésticos e manuais, a “Lectio Divina” (meditação da Bíblia) e o estudo. Sendo a vida comunitária um dos elementos estabelecidos pela Ordem, a oração litúrgica e os trabalhos manuais são efectuados em grupo. Porém, é no silêncio que tecem a maior parte do horário.

Há, contudo, dois “pequenos recreios”. Aí, debatem o quotidiano, o seu, dos seus e do que acontece fora das portas do Mosteiro. O dia termina com a oração de completas por volta das 22 horas.

“É um dia muito preenchido e todos os dias são diferentes. A rotina que parece existir é, no fim de contas, muito relativa” refere Marta Lages.

“Não se acomodem!”
Pelo convento também passam as notícias do país e do mundo. Na oração de quem trabalhou sempre com jovens, há uma presença constante dos rapazes e raparigas que, nos dias de hoje, tomam opções drásticas para a sua vida com consequências dramáticas para todos.

Aos que conhece e aos desconhecidos lembra que “Deus tem um projecto de felicidade para todos, mas não podemos viver acomodados. É preciso querê-lo”.

“Não é bom entrarmos na tristeza ou na desilusão” sublinha a noviça. “É preciso acreditar que todos os dias são diferentes e que existe um Deus que nos ama e que quer o melhor para nós. É mais fácil pensarmos que já temos tudo. Falo por mim. Não se deixem acomodar e aceitem o desafio” apela.

Marta Lages toma o hábito este sábado, às 11h30, no Mosteiro de Campo Maior, na cerimónia de iniciação à vida religiosa presidida pelo arcebispo de Évora, D. José Alves.