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Saiba de onde vêm os costumes que marcam hoje o Natal

22 dez, 2014 • Filipe d'Avillez

Presentes, Pai Natal, presépios e pinheiros: o Natal é uma festa entre o sagrado e o profano.

Saiba de onde vêm os costumes que marcam hoje o Natal
O nascimento de Jesus Cristo é narrado em dois dos quatro evangelhos, mas os detalhes dados pelos evangelistas são escassos ou mesmo inexistentes no que diz respeito a datas. Do ponto de vista histórico, por isso, não há de facto qualquer certeza de que Jesus tenha nascido a 25 de Dezembro. Mas, então, por que é que a Igreja escolheu esta data para o assinalar?

Não existem certezas, mas há várias teorias. A que é mais citada, por vezes até como forma de desacreditar a tradição cristã, diz que quando os cristãos começaram a ganhar maior expressão no Império Romano decidiram adoptar uma das grandes festas romanas, o "Dies Natalis Solis Invicti" ("Dia do nascimento do sol invicto"), que comemorava o Deus Sol. Mas esta teoria é hoje disputada.

O "Solis Invicti" foi oficialmente estabelecido no ano 274 pelo imperador romano Aurélio, mas, um século antes, o autor cristão Ireneu já tinha determinado o dia da concepção de Jesus como tendo ocorrido no dia 25 de Março, o que facilmente levaria a determinar que o seu nascimento tinha tido lugar nove meses depois, isto é, no dia 25 de Dezembro. É por isso possível que alguns cristãos já associassem a data do nascimento de Jesus ao 25 de Dezembro antes de a festa se generalizar e tornar-se mais festejada, no século IV.

É verdade que independentemente do "Solis Invicti" ter sido estabelecido mais tarde, os romanos, bem como outros povos da época, já celebravam o solstício de Inverno por volta da mesma data. Mas mesmo que estas festas e tradições tivessem influenciado a data escolhida pelos cristãos para festejar o Natal, isso não representa surpresa, nem escândalo: a inculturação de tradições pagãs pela igreja nascente é um facto conhecido e muito contribuiu para a expansão do cristianismo.

Uma questão de calendários
A mais antiga referência à data de Natal como sendo no dia 25 de Dezembro surge num calendário mandado produzir por um abastado cristão romano. A Cronografia de 354 (na imagem à esquerda) refere todas as festas e datas significativas do Cristianismo, incluindo o Natal.

OSabe-se ainda que a celebração do Natal nesta data começou no Ocidente e só chegou às igrejas orientais no século seguinte. Actualmente, algumas igrejas orientais assinalam o Natal a 7 de Janeiro, mas a diferença é apenas aparente. Na verdade também essas igrejas estão a festejar o 25 de Dezembro, mas de acordo com o calendário juliano, ainda usado para as festas litúrgicas das igrejas orientais. O calendário juliano tem um atraso de 13 dias em relação ao gregoriano, utilizado religiosamente pelas restantes igrejas e civilmente em grande parte do mundo.

Se sobre a data do Natal a influência pagã é discutível, sobre algumas das tradições incorporadas nos festejos não há dúvidas. A troca de presentes, por exemplo, parece ser claramente herdada da prática romana do festejo de Saturnália, dedicada ao deus Saturno, que se assinalava no dia 17 de Dezembro, mas que se prolongava até ao dia 23 e que incluía a troca de presentes entre familiares e amigos.

Pai Natal, presépios e pinheiros
Outras tradições surgiram bastante mais tarde. É sabido que o Pai Natal, por exemplo, é inspirado na figura de São Nicolau, um bispo que vivia no que é agora a Turquia e tinha o hábito de oferecer secretamente presentes, sobretudo a crianças e aos pobres.


Um anúncio de 1932 da Coca-Cola. Imagem: DR 

Tendo vivido no século IV, o seu culto foi expandindo ao longo dos séculos mas popularizou-se na sua forma actual graças a uma série de anúncios da Coca-Cola, nos anos 1930. Contudo, não é correcto que a figura do Pai Natal como a conhecemos agora tenha sido uma invenção da Coca-Cola. Pelo contrário, existem imagens dele com barba, ar rechonchudo e vestido de encarnado e branco em anúncios de outros refrigerantes logo no início desse século.

O que tem certamente raízes religiosas é o presépio. A sua criação é bastante tardia, relativamente às outras, datando do século XIII e sendo atribuída a São Francisco de Assis. Segundo a tradição, São Francisco encontrava-se em Greccio, Itália, por volta da altura do Natal e ficou chocado com o facto de todas as atenções dos locais estarem centradas nos aspectos materiais. Por isso, para realçar o espiritual, criou o primeiro presépio vivo, dando início a um costume que rapidamente foi aprovado pelo Papa Honório III e daí se espalhou.

Por fim, sabe-se também que a árvore de Natal é uma tradição alemã, muito provavelmente herdada do paganismo e que se popularizou no século XVI, tendo ganho particular proeminência entre comunidades protestantes.

Por esta razão, pelo menos até meados do século XX, no centro e norte da Europa as comunidades católicas evitavam as árvores de Natal, embora nos países com menos influência da reforma a tradição tenha chegado sem essas conotações. Não tendo nada de especificamente cristão associado, a árvore costuma ser decorada com motivos religiosas que recordam o Natal, como anjos e estrelas que representam a Estrela de Belém.