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"Amor de Jesus é muito maior do que outros que eu poderia ter"

07 dez, 2014

A Renascença falou com uma médica que seguiu o caminho da vida consagrada. Ângela de Fátima Coelho considera que foi "um dom de Deus".

Ângela de Fátima Coelho é consagrada na Aliança de Santa Maria e médica no Centro Hospitalar Leiria-Pombal e na Unidade de Cuidados Continuados da Batalha. Postuladora da causa de canonização de Francisco e Jacinta Marto e vice-postuladora da causa de beatificação da Irmã Lúcia, fala, em entrevista ao programa “Princípio e Fim” da Renascença deste domingo, das opções que tomou e do desafio que é o Ano da Vida Consagrada.

A primeira vez que sentiu o chamamento para a vida consagrada foi quando viu uma religiosa vestida de hábito, tinha então apenas seis anos e pensou: “Eu queria ser assim”. Na mesma altura, estando a mãe grávida de uma das irmãs, perguntou-lhe como é que o bebé nascia. Perante a resposta de que “é preciso um médico”, pensou: “Também quero ser médica”.

Todavia, enquanto a ideia de ser médica a foi acompanhando ao longo do percurso, a ideia de enveredar pela vida religiosa não foi tão constante. Foi a partir dos 18 anos que Ângela Coelho tomou consciência que era aquele o caminho que queria seguir. Como é que soube isto? “Há sempre um processo de discernimento, de oração”. Pensava: “eu fui criada por Deus para algum projecto, então ele vai dizer-me o que quer de mim”. Então perguntava-lhe: “Ó Senhor o que é que tu queres de mim, o que é que queres que eu faça?”. E assim foi ficando cada vez mais claro que era a vida consagrada.

Foi em 1995, quando acabou o curso de Medicina, que entrou na Aliança de Santa Maria. E porquê esta congregação? Não tanto pela missão, mas porque “se encantou com elas”, com as Irmãs.

Lembra-se que quando entrou pela primeira vez nesta comunidade, numa casinha no Porto, gostou da forma como todas se davam. “Gostei muito da alegria delas e da forma de ser muito simples e natural”, conta.

E pensou: “Eu assim também gostava de ser consagrada a Deus, mas de uma forma muito natural”. Depois, à medida que as foi conhecendo,  foi gostando muito “do amor que tinham por Nossa Senhora, pela mensagem de Fátima” (que  identificava como algo que já vinha de família) bem como do amor a Jesus. Nem sabia bem porque queria ir para ali, diz apenas que se “sentia bem com elas”. À medida que foi crescendo e conhecendo outras congregações foi ficando cada vez mais claro que o caminho era nesta comunidade.

Actualmente, é postuladora das causas de canonização de Jacinta e Francisco Marto e vice-postuladora da causa de beatificação da Irmã Lúcia de Jesus e um dia por semana exerce medicina no serviço de urgência do  Hospital de  Leiria ou na Unidade de Cuidados Continuados da Batalha, de forma alternada. São duas áreas que concilia bem porque no doente vê "Jesus e este consolar, como Jesus nos ensina na parábola do Bom Samaritano, que é um traço dos religiosos, com muita naturalidade se vive junto dos doentes”.

Questiona se alguma vez se arrependeu da opção pela vida religiosa, admite que já houve alturas em que pensou que talvez fosse mais feliz noutro lugar. Também admite ter “em momentos de escuridão”, saudades daquilo que não teve, uma família, o amor, a intimidade, a própria carreira na medicina, mas salienta: “nunca me arrependi de fundo, de forma a que de facto pusesse em causa a minha opção de seguir Jesus desta forma radical numa entrega total da minha vida tendo Deus como grande primado”.

“Nos últimos anos estou muito serena, identifico-me totalmente, se fosse hoje tomaria as mesmas decisões”. Salienta que “o caminho se faz caminhando", já conhece "melhor a pessoa de Jesus" e este conhecimento de Jesus é o que a faz não querer deixá-lo: "Porque o amor dele é muito maior do que outros amores que eu poderia ter”, sublinha. 

Consagrada há 19 anos, admite que o Ano da Vida Consagrada instituído pelo Papa Francisco é um desafio. Um tempo de reflexão para “perceber porque é que sou consagrada”, e ir às raízes iniciais da minha vocação, e também ver em mim própria até que ponto estou a seguir Jesus de acordo com o que o Espírito Santo também me vai mostrando”. Por  outro lado, é um tempo de “acção de graças e de júbilo, porque a vida consagrada é um dom de Deus”, e é um momento também para “nós louvarmos e agradecermos por isso”. É ainda uma oportunidade para a Igreja reflectir sobre a vida consagrada e “valorizar o contributo de tantos homens e tantas mulheres que se entregam, muitos em trabalhos escondidos e silenciosos”.

A entrevista a Ângela de Fátima Coelho pode ser ouvida na antena da Renascença, este domingo, pelas 23h30, no programa "Princípio e Fim".