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O que divide e o que aproxima católicos e ortodoxos

30 nov, 2014 • Filipe d’Avillez

Entendimentos sobre a primazia do Papa, o eventual estatuto dos ortodoxos numa igreja reunificada e a vontade de a Rússia se querer afirmar como potência política e religiosa são alguns dos grandes obstáculos no caminho da unidade.  

O que divide e o que aproxima católicos e ortodoxos
O Papa Francisco e o Patriarca Bartolomeu I de Constantinopla deram esta manhã um passo grande rumo à unidade entre católicos e ortodoxos, com um par de discursos em que se comprometeram nesse sentido.

Mas a comunhão eucarística plena ainda é um sonho distante que poderá não se realizar nas vidas destes dois líderes, apesar dos grandes avanços feitos nos últimos 50 anos.

Primazia sim, mas que primazia?
Os católicos têm defendido que a primazia do Papa na cristandade é total, isto é, inclui uma primazia de autoridade. Quer isto dizer que em caso de disputas ou de problemas na Igreja, seja em que diocese ou país for, o Papa tem autoridade não só para mediar o conflito como para impor uma solução.

Já os ortodoxos têm uma visão diferente. Eles entendem que cada Patriarca autónomo é soberano no seu território tradicional e que a primazia dos Patriarcas de sés apostólicas, como é o caso de Roma e de Constantinopla, é apenas de natureza honorífica e de caridade. Sob este ponto de vista, se há uma disputa interna na Igreja Ortodoxa Russa, ou entre duas igrejas ortodoxas, nem o Papa nem, actualmente, o Patriarca de Constantinopla podem impor qualquer solução, por mais que lhes seja pedido que aconselhem as partes.

Actualmente existe uma comissão mista de peritos católicos e ortodoxos que se reúne regularmente e que estuda precisamente a natureza da primazia do Papa durante o primeiro milénio, quando as igrejas estavam unidas, para tentar usar como base para edificar uma reunificação futura.

É por isso que as palavras do Papa Francisco desta manhã foram tão significativas, quando ele assegurou os ortodoxos que a Igreja católica não tem qualquer vontade de impor aos ortodoxos coisas que não sejam do património comum das duas tradições.

“R” de “Reacção” e de “Rússia”
Tanto a Igreja Católica como a Ortodoxa têm os seus contingentes de pessoas, desde leigos a bispos, que consideram qualquer aproximação ecuménica uma traição à verdadeira fé.

Neste campo as maiores dificuldades estão do lado ortodoxo. Bartolomeu já disse várias vezes que a caminhada ecuménica é “irreversível”, mas o problema é que o Patriarca de Constantinopla não tem entre os ortodoxos o mesmo peso que o Papa tem entre os católicos, uma vez que ele é apenas considerado o “primeiro de entre iguais” pelos restantes patriarcas.

Assim, o entusiasmo de Constantinopla é significativo, mas de pouco vale se os restantes patriarcas ortodoxos não o acompanharem. E é aí que se encontra o problema principal. É que muitos dos outros patriarcas encaram o ecumenismo de forma mais fria. Parece ter sido a estes que Bartolomeu se dirigia quando disse, este domingo de manhã: “De que serve a nossa fidelidade ao passado se isso não significar algo para o futuro? De que vale orgulharmo-nos daquilo que recebemos se isso não se traduzir em vida para a humanidade e para o mundo tanto hoje como amanhã? ‘Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e amanhã’ e a sua Igreja é chamada a colocar os seus olhos mais no hoje e no amanhã do que no ontem”.

O problema seria menor se fossem apenas uma ou outra igreja de menos expressão a manifestar esta desconfiança, mas o facto de ser a Igreja Ortodoxa da Rússia a fazê-lo é muito mais complexo. Os russos compõem a esmagadora maioria dos fiéis da Comunhão Ortodoxa. Oprimida durante o regime soviético, a Igreja Ortodoxa beneficia agora de uma relação próxima e privilegiada com o regime de Putin que está, precisamente, a tentar impor-se como contraponto ao Ocidente.

Os russos, por exemplo, têm sido instrumentais para impedir que qualquer Papa desde João Paulo II visitasse o país e a sua tentativa de se impor como líderes do mundo ortodoxo têm levado a conflitos com o próprio patriarca de Constantinopla.

Os motivos invocados pelos líderes ortodoxos são outros, todavia. Eles queixam-se de “proselitismo” por parte dos católicos em territórios tradicionalmente ortodoxos, como na Ucrânia, por exemplo, o segundo maior país ortodoxo, em termos demográficos, mas onde está sedeada também a Igreja Greco-Católica da Ucrânia, a maior de entre as católicas orientais. O actual conflito na Ucrânia, onde a Igreja Greco-Católica tomou claro partido pela facção pró-europeia, só veio piorar as relações.

Igrejas Católicas Orientais
A maioria das 22 igrejas de rito oriental que, juntamente com a Igreja Latina, formam a Comunhão Católica, existem porque a dada altura uma facção rompeu com uma Igreja Ortodoxa em particular e pediu para entrar em comunhão plena com Roma.

Se por um lado esta variedade mostra que na Igreja Católica há espaço para várias sensibilidades, tradições e práticas litúrgicas, a verdade é que actualmente a situação destas igrejas é alvo de grandes críticas e alguma desconfiança por parte dos ortodoxos, que olham para os limites que Roma impõe ao seu ministério e entende que se tratam de “católicos de segunda”.

Por exemplo, os patriarcas católicos orientais não têm jurisdição sobre os seus fiéis a viver na diáspora, que ficam então sob a responsabilidade do bispo latino local. Este tipo de tratamento preocupa os ortodoxos que se questionam sobre como seriam então tratados no caso de uma reunificação.

Mas aqui também tem havido mudanças promissoras. Até recentemente os bispos de comunidades católicas orientais na diáspora estavam impedidos de ordenar homens casados, como é da sua tradição. Mas isso foi alterado este ano por ordem do Papa.

O que os une
Ortodoxos e Católicos viveram em plena união durante mais de mil anos e há por isso muito mais coisas que os unem do que dividem. Por exemplo o Credo, a articulação da fé que professam uns e outros, é fundamentalmente igual. Roma inseriu a expressão “e do filho”, que os ortodoxos não utilizam, na frase sobre de onde procede o Espírito Santo, mas teologicamente a questão não levanta grandes problemas.

Ambas as igrejas reconhecem a validade dos respectivos sacramentos. No concílio Vaticano II ficou claro, do lado católico, que as igrejas ortodoxas são “igrejas irmãs”, cujo clero tem ordens válidas e cujas celebrações também são válidas.

As diferentes tradições litúrgicas e teológicas também não apresentam qualquer obstáculo. Embora a esmagadora maioria dos católicos seja de rito latino, existem mais 22 igrejas católicas orientais, todas em plena união com Roma, que têm tradições litúrgicas e espirituais em muitos casos idênticas às dos ortodoxos.

Ao contrário do que se possa pensar, a primazia do Bispo de Roma também não é razão de disputa. Os ortodoxos reconhecem que Pedro tinha um lugar de destaque entre os apóstolos e que por isso os seus sucessores gozavam de um estatuto especial também. Mas a natureza dessa primazia é que é, verdadeiramente, um obstáculo à plena unidade.

Por fim, católicos e ortodoxos têm uma enormidade de causas que podem abraçar em conjunto. Desde a defesa dos cristãos perseguidos no Médio Oriente e noutras partes do mundo, passando pelo combate a um secularismo intolerante até à defesa do casamento e da vida intra-uterina. Estas causas comuns são mais importantes do que se possa pensar à primeira vista, uma vez que a colaboração nestes campos permite aumentar o respeito e a confiança mútuos e em muitos causas firmar relações de verdadeira proximidade e amizade, sobre as quais qualquer diálogo doutrinal se torna mais fácil.