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“A única coisa que procuro é a comunhão com os ortodoxos”

30 nov, 2014 • Filipe d’Avillez

Francisco e Bartolomeu mostraram novamente, através dos seus discursos, que o diálogo teológico não é a única, nem a primeira, forma de ecumenismo. A unidade entre católicos e ortodoxos ficou este domingo um pouco mais próxima.  

“A única coisa que procuro é a comunhão com os ortodoxos”
“A única coisa que procuro é a comunhão com os ortodoxos”
O Papa Francisco deu este domingo um importante passo rumo à unidade plena com a Igreja Ortodoxa, através do seu discurso proferido no final da celebração eucarística ortodoxa realizada na Igreja Patriarcal de São Jorge, em Istambul. Com as suas palavras, Francisco procurou assegurar os ortodoxos de que a ideia que tem de unidade não passa por qualquer forma de “absorção” pela Igreja Católica ou “submissão” dos ortodoxos a tradições que lhes são estranhas.
O Papa Francisco deu este domingo um importante passo rumo à unidade plena com a Igreja Ortodoxa, através do seu discurso proferido no final da celebração eucarística ortodoxa realizada na Igreja Patriarcal de São Jorge, em Istambul, onde se encontra numa visita que termina esta tarde.

Com as suas palavras, Francisco procurou assegurar os ortodoxos de que a ideia que tem de unidade não passa por qualquer forma de “absorção” pela Igreja Católica ou “submissão” dos ortodoxos a tradições que lhes são estranhas.

“Quero assegurar a cada um de vós que, para se alcançar a tão desejada meta da plena unidade, a Igreja Católica não tem intenção de impor qualquer exigência, excepto a da profissão da fé comum, e que estamos prontos a buscar juntos, à luz do ensinamento da Escritura e da experiência do primeiro milénio, as modalidades que garantam a necessária unidade da Igreja nas circunstâncias actuais: a única coisa que a Igreja Católica deseja e que eu procuro como Bispo de Roma, ‘a Igreja que preside na caridade’, é a comunhão com as Igrejas ortodoxas.”

Essa busca conjunta pelo conhecimento exacto das “modalidades que garantem a necessária unidade da Igreja”, à luz do primeiro milénio, em que as igrejas estavam em plena comunhão, é o cerne do diálogo ecuménico doutrinal realizada pela comissão mista que reúne peritos de ambos os lados. Ainda não existe entendimento sobre a forma exacta como o ministério do Papa era exercida naquela altura, mas tanto Francisco como Bartolomeu deixaram claro este domingo que esse nível de diálogo, embora necessário, não é nem o mais importante nem o primeiro, referindo-se ao ecumenismo da amizade e ao ecumenismo de sangue.

“Encontrar-nos, olhar o rosto um do outro, trocar o abraço de paz, rezar um pelo outro são dimensões essenciais do caminho para o restabelecimento da plena comunhão para a qual tendemos. Tudo isto precede e acompanha constantemente a outra dimensão essencial do referido caminho que é o diálogo teológico”, disse Francisco.

Já Bartolomeu fez referência à questão do ecumenismo de sangue, um termo já adoptado várias vezes por Francisco: “Os modernos perseguidores dos cristãos não perguntam a que Igreja pertencem as suas vítimas. A unidade que nos preocupa já se realiza, infelizmente, em certas regiões do mundo, através do sangue do martírio”.

Os dois hierarcas apresentaram a busca pela unidade como uma obrigação exigida precisamente pelas vítimas das guerras no mundo, dos pobres que pedem que se lute “contra as causas estruturais da pobreza, a desigualdade, a falta de trabalho digno, de terra e de casa, a negação dos direitos sociais e laborais” e, por fim, dos jovens “que hoje nos pedem para avançar rumo à plena comunhão. Não porque ignorem o significado das diferenças que ainda nos separam, mas porque sabem ver mais além, são capazes de captar o essencial do que já nos une”.

“Arauto do amor, paz e reconciliação”
Da boca de Bartolomeu, Francisco ouviu aquele que terá sido provavelmente o maior elogio feito a um Papa por um hierarca ortodoxo desde a separação das duas igrejas, no ano 1054.

Apelidando o Papa de “arauto do amor, paz e reconciliação”, Bartolomeu disse ainda que Francisco prega com palavras, mas “acima de tudo com a simplicidade, humildade e amor para com todos que exerce através do seu alto ministério. Inspira os cépticos a confiar, esperança nos desesperados, antecipação naqueles que esperam uma Igreja que cuide de todos. Mais, oferece aos seus irmãos e irmãs ortodoxos a aspiração de que durante o seu reinado a aproximação das nossas duas grandes e antigas igrejas continuará a estabelecer-se sob as sólidas fundações da tradição comum que sempre preservou e reconheceu na constituição da Igreja uma primazia de amor, honra e serviço, num contexto de colegialidade”.

Mas o discurso do Patriarca Bartolomeu também conteve alguns recados internos. Constantinopla, o nome antigo de Istambul, é considerado o principal patriarcado da comunhão ortodoxa, desde a separação com Roma, e o seu Patriarca, embora não exerça autoridade sobre os restantes, é considerado o “primeiro entre iguais” em honra.

Dentro da comunhão ortodoxa, contudo, nem todos sentem o mesmo entusiasmo que Bartolomeu pela caminhada ecuménica, nomeadamente a Igreja Ortodoxa Russa, a maior de todas, tem grandes reservas quanto à aproximação a Roma.

Os ortodoxos orgulham-se de terem preservado todas as tradições antigas das suas igrejas, sem ter alterado nada e por isso quando o Patriarca disse: “De que serve a nossa fidelidade ao passado se isso não significar algo para o futuro? De que vale orgulharmo-nos daquilo que recebemos se isso não se traduzir em vida para a humanidade e para o mundo tanto hoje como amanhã? ‘Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e amanhã’ e a sua Igreja é chamada a colocar os seus olhos mais no hoje e no amanhã do que no ontem”.

Mas talvez a palavra mais significativa do Patriarca Bartolomeu, e a que melhor exprime o que vai no coração e na mente de ambos, tenha sido proferida na altura em que se referia a uma eventual unidade plena e tenha usado a palavra “quando” e não “se”.