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Monsenhor Angelo Zani

Pais mais adolescentes do que os seus filhos não sabem como dialogar

17 nov, 2014 • Aura Miguel

O "número 2" do Vaticano para a Educação Católica esteve em Portugal e falou com a Renascença. Monsenhor Angelo Zani entende que, muitas vezes, o problema está mais nos pais do que nos filhos.

O secretário da Congregação para a Educação Católica, monsenhor Angelo Zani, diz que muitos adultos são hoje mais adolescentes que os seus filhos e não sabem como dialogar.
 
O "número 2" para os assuntos relacionados com a educação católica no Vaticano esteve em Portugal e, em declarações à Renascença, apontou também a vertiginosa quantidade de informação a que os jovens têm hoje acesso como causadora de divisões entre pais e filhos, tal como entre professores e alunos, uma situação que preocupa a Santa Sé. 

“A primeira geração tem dificuldades em relacionar-se com a segunda geração. O problema toca a questão da autoridade e a questão da liberdade - dois elementos fundamentais no processo educativo. Só que o maior problema está nos adultos e não nos jovens. Os jovens são muito mais abertos, enquanto os adultos não sabem como tratar esta nova exigência dos jovens. Por isso, há desconforto entre os adultos", afirma Angelo Zani.

“Muitos especialistas definem a cultura e sociedade de hoje como uma sociedade 'adolescêntrica', ou seja, os adultos sentem desconforto na relação com os filhos, vivem num estado de adolescência, são incertos, inseguros, não sabem que cultura transmitir aos outros, nem que valores característicos da sua formação podem ser úteis aos jovens de hoje. Não sabem relacionar-se”, reforça o secretário da Congregação para a Educação Católica.

“Estamos hoje perante uma grande urgência educativa, marcada pela ditadura do relativismo, pelo problema que resulta do confronto com os valores fundamentais que estão na base de um processo educativo”, afirma ainda Zani, considerando, neste quadro, fundamental aprofundar a identidade católica no seio das famílias e da escola.

O trabalho de educar as novas gerações passa, na perspectiva de monsenhor Zani, por uma mudança de perspectiva, passando "do ensinamento à aprendizagem, ou seja, do que era o mestre para pôr no centro a pessoa do outro. Este é que deveria ser o método cristão de ensinar: passar do ser autoritário ao ter autoridade, quer dizer, dar testemunho. É a forma de superar a divisão entre gerações”.

Não basta haver regras contra o “boom” informático
Perante a revolução informática, cada vez mais presente na vida de quase todos, Angelo Zani reconhece que há “muitos professores e formadores incomodados porque os miúdos têm instrumentos com maior capacidade para obter, conhecer ou pescar informações, comparada com a que deviam adquirir nas aulas".

O Vaticano considera que é preciso reflectir e adverte que, “do ponto de vista educativo, não basta haver regras para educar hoje", porque, "tendo em conta a velocidade com que mudam as relações interpessoais e o próprio modo de pensar, é preciso ir mais a fundo nos critérios de ensino, para que os alunos saibam discernir”.

O especialista em processos cognoscitivos Edgar Morin escreveu um livro intitulado “A cabeça bem arrumada”. Aí, defende que não basta uma cabeça cheia de informações, é preciso uma cabeça bem organizada. E "este é o ponto", na análise de monsenhor Zani: "Não basta informação, informação, informação; encher, encher, encher, para se ficar na confusão e não saber o que escolher. É preciso organizar, criar uma hierarquia dos conhecimentos que adquiro”.

Identidade católica e falta de coragem
Zani aponta ainda um terceiro elemento que preocupa a Santa Sé, relacionado com a globalização, o confronto entre culturas e os conflitos que daí resultam.

“O problema intercultural levanta a questão da identidade e da solidariedade. É este o grande desafio que hoje a educação deve enfrentar”, afirma.

“Há 210 mil escolas católicas  em todo o mundo, frequentadas por 59 milhões de estudantes, em que mais de 50% não são cristãos, nem católicos, em que há muçulmanos que vão à escola católica. Por que é que lá vão se não encontram esta novidade? Muitas vezes, o problema é nosso, porque não somos capazes de o transmitir, não elaboramos dinâmicas processuais educativas marcadas por uma visão cristã e adequamo-nos a teorias obtidas de um lado e do outro e não temos coragem de ir até ao fundo da nossa identidade”, conclui o responsável do Vaticano para a Educação Católica.