Tempo
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Entrevista

"Deus vem na vida de todos os dias. Deus não é a emergência do extraordinário"

17 out, 2014 • Ângela Roque

É preciso uma "reconciliação profunda com o tempo" para poder experienciar o "simples da vida" como a "epifania de Deus". Entrevista ao padre Tolentino Mendonça, que acaba de lançar "A Mística do Instante".

"Deus vem na vida de todos os dias. Deus não é a emergência do extraordinário"
Mendonça
Não há "fórmulas mágicas" para chegar a Deus. A mística e a santidade não são só para "heróis", mas estão ao alcance de todos, todos os dias.

É preciso encontrar "uma nova gramática para dizer e viver a espiritualidade cristã", tal como é necessária uma "reconciliação profunda com o tempo" para poder olhar o modo como o simples da vida se torna uma epifania de Deus".

"Deus não é a emergência do extraordinário, mas Deus dá-se a ver, a tocar, a cheirar, a degustar, no mais ordinário dos nossos gestos, das nossas rotinas, dos nossos quotidianos", diz o padre Tolentino Mendonça, em entrevista à Renascença, a propósito do seu novo livro "A Mística do Instante – O Tempo e a Promessa" (Edições Paulinas).

O que o levou a querer escrever este livro? A percepção de que estamos, de alguma forma, numa época de viragem?
Por um lado, sinto que estamos numa época de viragem e estamos perante a necessidade de encontrar uma nova gramática para dizer e viver a espiritualidade cristã. E um dos aspectos que têm sido por vezes esquecidos tem a ver com a dimensão do corpo, da presença, da história, dos sentidos, na construção do caminho espiritual. Muitas vezes esse caminho é visto como um caminho interior, um bocadinho abstracto, que se prende sobretudo com o domínio das convicções, com as razões, com o sentido. E muitas vezes perdemos de vista que também através dos sentidos se toca o sentido. E que é muito a partir das entradas da nossa percepção mais sensorial que também nós tocamos o modo fantástico como Deus – e a interrogação de Deus – passa pelas nossas vidas.

Diz no livro: "Deus vem ao nosso encontro pelo mais quotidiano, mais banal e próximo dos portais: os cinco sentidos".
É fundamental percebermos que Deus vem na vida de todos os dias. Deus não é a emergência do extraordinário, mas Deus dá-se a ver, a tocar, a cheirar, a degustar, no mais ordinário dos nossos gestos, das nossas rotinas, dos nossos quotidianos. Porque só assim, dessa forma, é que a fé pode fazer corpo, história, com o mais comum das nossas vidas.

Mas a agitação em que hoje se vive permite ver isso?
Por isso é que precisamos de um despertar. E este livro é também uma chamada de atenção à nossa humanidade. Porque desvalorizamos muito as possibilidades que temos para chegar a Deus… Às vezes somos seduzidos pela ideia de encontrar uma fórmula mágica para resolver os nossos problemas e necessidades. Ora, tudo está em nós, com o que somos, com o que cada um é, com a história que vive, com o modo como a sua existência se configura. Temos tudo o que é necessário para fazer um caminho de profundidade e de encontro com o horizonte de Deus.

Mas esse caminho é acessível a todos? A ideia que se faz dos místicos é que são pessoas que vivem isoladas, em meditação e silêncio.
Essa foi uma das ideias feita que quis combater na escrita deste livro, que é pensar a mística ou pensar a santidade como uma coisa fora de formato, fora de tempo, e que em resumo não é para nós, é para os outros, é para os heróis, é para os grandes – a mística é para Santa Teresa de Ávila, para S. João da Cruz, mas não é para a nossa vida simples e comum.

Ora, a minha ideia de mística que eu vou buscar a um autor que estudou muito o fenómeno da mística, Michel de Certeau, é que o místico, ou a mística, "é aquele que não desiste de caminhar". E, com esta definição, místico somos cada um de nós, na medida em que não desistimos de caminhar, em que vivemos nesta inquietação, neste sobressalto de procurar; na medida em que procuramos tomar consciência do que é a nossa vida e a nossa história em cada dia, no nosso quotidiano, nós podemos viver o que muitos autores chamam "a mística de olhos abertos". Porque nós não encontramos Deus apenas quando fechamos os olhos: encontramos Deus também quando abrimos os olhos e quando os abrimos corajosamente sobre a realidade mais ínfima, mais pequena e mais próxima.

Entre as possibilidades que o seu livro nos apresenta está, para além da importância de se revalorizarem os sentidos, a necessidade de reconciliação com o tempo, de reaprender a valorizar o silêncio, o descanso.
Essa é uma grande conversão. A forma como nós lidamos com o tempo é anómala porque deixámos de ter tempo. O tempo é uma invenção humana, mas nós nunca temos tempo. [Urge] Uma reconciliação profunda com o tempo, com os ritmos mais humanos, com a necessidade do descanso, do repouso, da sedimentação, para que cada um de nós possa sentir-se habitado, sentir o sabor das coisas pequenas, poder olhar o modo como o simples da vida se torna uma epifania de Deus.

É esse o caminho da mística do instante?
A mística do instante faz-se com a vida, com uma aceitação do que é o risco de viver, a vida quotidiana, neste estado de atenção, sentindo que os acontecimentos que passam por nós através do tacto, do odor, do paladar, através do olhar e da escuta, são lugares para descobrir e aprofundar esse encontro connosco próprios, essa descoberta incessante e inacabada do mundo, esse tactear do rosto de Deus.

Escutar o outro é uma coisa que nem os crentes fazem como deve ser?
É um dos pecados de que precisamos de nos arrepender. Olhamos para os outros e achamos que já sabemos previamente o que eles vão dizer. E muitas vezes a escuta que fazemos é também demasiado epidérmica, superficial. Porque escutar é escutar muitas vezes o que não é dito, o que fica por dizer – é escutar a vida calada, a dimensão mais silenciosa e enigmática do próprio viver. E é essa escuta profunda do outro que permite a hospitalidade, que permite o acolhimento. Nós não podemos dizer que amamos os nossos irmãos se não fizermos uma audição plena da sua palavra e do silêncio, da sua noite e do seu dia, da sua presença e da sua ausência.

"Escutar com o coração", a regra de S. Bento?
O grande instrumento da escuta é o coração. Porque uma escuta apenas sonora é uma escuta parcial, é uma escuta ainda a fazer, a acontecer. Aquilo que dizia Antoine de Saint Exupéry: "O essencial é invisível aos olhos, só se vê bem com o coração". Nós podíamos também dizer: "O essencial é inapreensível pelos ouvidos, só se escuta bem com o coração’.

Também diz no livro que nos faltam hoje não só mestres de vida interior, mas mestres de vida. Aos crentes também faltam estas referências?
Muitas vezes olhamos para o cristianismo apenas como uma verdade em que temos de acreditar e não como uma vida que temos de viver. E, nesse sentido, um grande desafio que hoje se coloca ao cristianismo é encontrar uma gramática sapiencial. O cristianismo também serve para nos ensinar a viver e a viver bem, a ter uma vida feliz. Nesse sentido, o cristianismo não precisa apenas de teólogos, mas também de mestres, de pastores, que dêem o testemunho de uma vida encontrada e feliz.

Nesse sentido também estamos num momento especial da Igreja?
Penso que estamos num momento de encruzilhada onde esta problemática é sentida como alguma coisa com a qual nos temos de confrontar. Hoje, de facto, precisamos de uma sabedoria de viver, não nos basta apenas um método dedutivo, isto é, partir das grandes verdades e tirar ilações para a vida de todos os dias, mas precisamos também de um método indutivo, isto é, ler a nossa vida, escutar aquilo que somos, aquilo que vivemos e partir daí para uma procura, para um encontro com a grande verdade revelada.

Este é um livro para crentes e não crentes?
A mensagem cristã é uma mensagem para a humanidade. Jesus não falou para os crentes, falou para os que O escutavam: "Quem tiver ouvidos para ouvir oiça". E, no fundo, o público com o qual eu dialogo é muito esse, "quem tiver ouvidos", seja qual for a sua proveniência, a sua idade, o seu género, o caminho que esteja a fazer. Porque penso que a Igreja precisa hoje de uma capacidade renovada de ir ao encontro da pessoa humana e de dialogar para lá do seu redil.

Com os seus livros tem ajudado muita gente a fazer o seu caminho. Podemos falar de si como um místico?
No sentido em que digo que todo o leitor e todo o que procura é místico também se pode falar de mim como místico. Eu acredito muito nesta espécie de magistério literário, magistério intelectual, que passa muito por, através dos livros, através dos textos, através da palavra, gerar encontros, gerar comunidades, que são comunidades de leitores, que são crentes e não crentes, que são mulheres e homens, novos e velhos, que procuram e que na palavra encontram uma voz que dialoga com as interrogações que os habitam.

Pode ouvir a entrevista a Tolentino Mendonça no programa Princípio e Fim (domingo, 23h30)