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Entrevista

Adriano Moreira: Choque entre Paulo VI e Salazar era inevitável

16 out, 2014 • Aura Miguel

Paulo VI disse que "o novo nome da paz chama-se desenvolvimento – não se chama indigenato, não se chama trabalho forçado, não se chama ter colónias, não se chama nada disso". E Salazar não gostou.

Adriano Moreira: Choque entre Paulo VI e Salazar era inevitável

Nas vésperas da beatificação de Paulo VI, Adriano Moreira, ministro do Ultramar de 1961 a 1963, recorda a visita deste Papa a Fátima (a primeira de um Santo Padre) e toda a polémica e difícil relação entre Roma e Lisboa que a antecedeu.

Em causa estava a concepção que Salazar tinha do mundo e da relação da Igreja com os estados. Perante isto, e o facto de Paulo VI ter de ser fiel às mudanças do Concílio Vaticano II, o choque era quase inevitável, defende o professor universitário.

Como era a relação entre Salazar e Paulo VI?
Só podemos entender bem a relação entre Salazar e Paulo VI, em primeiro lugar, a partir da visão do mundo e da vida que tinha Salazar, que não admitia a intervenção da Igreja nos assuntos do Estado. Havia uma espécie de anticlericalismo provinciano.

Essa interferência sentiu-se no pontificado de Paulo VI?
Começou a manifestar-se, sobretudo, com a história da Índia [quando o Papa visitou Bombaím, apesar dos protestos de Portugal, devido à anexação de Goa, Damão e Diu poucos anos antes].

O problema mais importante é que a relação de Salazar com a evolução das Nações Unidas não foi uma relação pacífica. Não tem sido suficientemente reparado que na Declaração Universal dos Direitos do Homem, anexa à Carta das Nações Unidas, vem estabelecido, entre os direitos humanos, a liberdade de todas as religiões. Se quisermos reduzir isto a uma fórmula simples, são os "Césares" que reconhecem a liberdade de religião.

Paulo VI vai ser o grande Papa do concílio [Vaticano II]. Toda a doutrina do concílio acompanhava – sem legitimar a violência – os movimentos descolonizadores. Portanto, não podia haver maior contrariedade em relação a Salazar quando o Papa recebe os líderes africanos da independência.

Como foi a reacção?
Muito severa. O que é que o Papa faz? Afirma a doutrina do concílio, que serve para todos os governos; em segundo lugar, diz que o concílio ensina a descolonização, ou seja, afirma que o novo nome da paz chama-se desenvolvimento – não se chama indigenato, não se chama trabalho forçado, não se chama ter colónias, não se chama nada disso – e isso era uma oposição definitiva de atitudes.

Tudo isso terá repercussões quando o Papa visita Fátima.
A questão da vinda do Papa a Portugal traduziu-se, protocolarmente, num acto de grande significado. Ele não veio fazer uma visita de Estado, nem sequer deixa que o avião aterre em Lisboa e isto soma-se à reprovação da política do Governo português.  Salazar é convencido a ir a Fátima e aí vê-se a atitude do fiel diante do dirigente da sua Igreja e vê-se uma espécie de sobranceria.

Por parte de quem?
Do Papa. É verdade também que a sua [de Salazar] relação de fiel face à Igreja não deve ser posta em causa, nunca.

Outra coisa diferente é a relação do próprio país, a nível de Estado, com a Santa Sé?
Foi isso que eu sempre classifiquei como "anticlericalismo do Norte": "nada de se meter na vida da Igreja", é bom separar a fé do comportamento político. É bom perceber a separação - a César o que é de César, a Deus o que é de Deus - no julgamento de Salazar e compreender que, nestas atitudes, era a concepção que Salazar tinha do Estado, por desfasada que estivesse da evolução do mundo, que levava a esse choque e que o Papa não podia fazer outra coisa, também, para ser fiel ao concílio.