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“Matar em nome de Deus é sacrilégio, discriminar é desumano”

21 set, 2014 • Filipe d’Avillez

A história recente da Albânia comprova como a “expulsão forçada” de Deus da sociedade leva à violação da dignidade do homem, afirmou Francisco.  

“Matar em nome de Deus é sacrilégio, discriminar é desumano”
“Matar em nome de Deus é sacrilégio, discriminar é desumano”
O Papa Francisco encontrou-se, este domingo, com os líderes das diversas comunidades religiosas na Albânia e deixou uma mensagem a quem comete actos de violência em nome da sua fé: “a religião autêntica é fonte de paz e não de violência. Ninguém pode usar o nome de Deus, para cometer violência. Matar em nome de Deus é um grande sacrilégio. Discriminar em nome de Deus é desumano”, sublinhou o Santo Padre.
O Papa Francisco encontrou-se esta tarde com os líderes das diversas comunidades religiosas na Albânia, mas deixou palavras dirigidas particularmente a quem comete actos de violência em nome da sua fé.

“Não podemos deixar de reconhecer como a intolerância, com quem tenha convicções religiosas diferentes das próprias, é um inimigo particularmente insidioso, que hoje infelizmente se está a manifestar em várias regiões do mundo”, lamentou o Papa.

“Como crentes, devemos estar particularmente vigilantes para que a religiosidade e a ética que vivemos com convicção e que testemunhamos com paixão se exprimam sempre em atitudes dignas daquele mistério que pretendemos honrar, rejeitando decididamente como não verdadeiras – porque não são dignas de Deus nem do homem – todas as formas que constituem um uso distorcido da religião.”

“A religião autêntica é fonte de paz e não de violência. Ninguém pode usar o nome de Deus, para cometer violência. Matar em nome de Deus é um grande sacrilégio. Discriminar em nome de Deus é desumano”, concluiu.

Os verdadeiros crentes, considerou o Papa, não devem temer os outros: “Quem está seguro das próprias convicções não tem necessidade de se impor, de exercer pressões sobre o outro: sabe que a verdade tem a sua própria força de irradiação.”

“Não vivemos como entidades autónomas e auto-suficientes– quer se trate de indivíduos, quer de grupos nacionais, culturais ou religiosas – mas dependemos uns dos outros, estamos confiados aos cuidados uns dos outros. Cada tradição religiosa deve conseguir, a partir de dentro, dar-se conta da existência do outro.”

Francisco encontrou-se esta tarde, depois do almoço, com líderes da comunidade católica, ortodoxa e muçulmana da Albânia, um país de maioria islâmica mas onde as várias comunidades vivem num clima de sã convivência.

Não existe um historial de violência inter-religiosa no país, mas estas comunidades aproximaram-se ainda mais durante o regime comunista, uma vez que todos os fiéis, independentemente da sua confissão, sofreram às mãos do absolutismo ateu.

“A Albânia foi, tristemente, testemunha das inúmeras violências e dramas que pode causar a exclusão forçada de Deus da vida pessoal e comunitária. Quando se pretende, em nome de uma ideologia, expulsar Deus da sociedade, acaba-se adorando ídolos, e bem depressa o próprio homem se sente perdido, a sua dignidade é espezinhada, os seus direitos violados.”

“Conheceis bem a brutalidade a que pode conduzir a privação da liberdade de consciência e da liberdade religiosa, e como desta ferida se gera uma humanidade radicalmente empobrecida, porque fica privada de esperança e de ideais de referência”, disse.

Num discurso em que improvisou bastante, dizendo por exemplo que cada um tem uma identidade religiosa que lhe é dada por Deus e que o diálogo consiste em exibir plenamente essa identidade e não escondê-la, o Papa usou também o seu sentido de humor, comentando a dada altura que a sala parecia um jogo de futebol prestes a começar: "Temos os católicos todos deste lado da sala e os outros do outro lado", disse, rindo.

Depois deste discurso o Papa encontra-se com membros do clero, religiosos, seminaristas e leigos comprometidos da Igreja albanesa, onde fará o seu quarto discurso de um dia muito recheado neste visita a Tirana, na Albânia.