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Reportagem

Albânia. O exemplo de paz religiosa que Francisco quer "mostrar ao mundo"?

19 set, 2014 • Cristina Nascimento

Assim acreditam alguns dos 50 albaneses a viver em Portugal. Falámos com três, a milhares de quilómetros da terra que o Papa visita no domingo.

Albânia. O exemplo de paz religiosa que Francisco quer "mostrar ao mundo"?

A morar em Lisboa há 13 anos, o albanês Alket Tafa, 32 anos, prefere não dizer qual é a sua religião. Ele explica porquê: "O que é importante é acreditarmos em Deus e não andarmos a odiar ou a amar alguém só porque acredita em Deus de uma forma ou de outra".

Não lhe passou pela cabeça ir à Albânia acompanhar a visita do Papa deste domingo, mas reconhece que a deslocação de Francisco é muito importante e com significado "político". É a segunda vez que um Papa vai à Albânia (João Paulo II fez a estreia em 1993).

Os dados oficiais indicam que mais de 60% dos albaneses são muçulmanos e pouco mais de 30% cristãos.

"A Albânia é o melhor exemplo de paz religiosa e o Papa vai usar esta paz para mostrar ao mundo que é possível viver em paz, mesmo com religiões diferentes", diz à Renascença, sentado numa das mesas do seu restaurante, no Saldanha, em Lisboa.

Uma "grande viagem"
A comunidade albanesa em Portugal não é numerosa. A embaixada em Lisboa (que está para fechar a 1 de Outubro) tem registo de apenas 50 albaneses em Portugal.

Num restaurante-bar no Cais do Sodré, em Lisboa, mesmo junto ao rio, encontramos um deles, a pintora Esmeralda Fetahu, 32 anos.

Esmeralda está em Portugal há cinco anos, mas saiu da Albânia há muitos mais, há 18. Saiu do país sem fé para se encontrar com o catolicismo em Itália.

"Quando eu saí da Albânia, com nove anos, fui para Itália e conheci uma pessoa que teve muita influência na minha vida. Com 12 anos, decidi que queria ser baptizada e fiz quase tudo ao mesmo tempo – baptismo, comunhão, crisma", conta.

Confessa não ser praticante, mas olha com alegria para a visita de Francisco.

"Vai ser para os albaneses uma grande viagem, vai ser muito especial", diz, lembrando novamente os anos em que a religião era proibida no país. "Eles sentirem a presença do representante máximo dos cristãos [católicos] vai ser muito importante", remata.

"Se pudesse até ia à Albânia"
A mulher de Alket, sentada do outro lado da mesa do restaurante do Saldanha, está visivelmente entusiasmada com a visita de Francisco.

"Se pudesse", afirma Ertila Sinaj, 29 anos, "até ia à Albânia, mas não é possível". Assim vai acompanhando à distância, via Facebook. "Sou fã do primeiro-ministro e vou lendo, no Facebook dele, todos os preparativos para a visita do Papa".

Apesar dos recentes alertas sobre eventuais riscos para a segurança de Francisco (o embaixador do Iraque no Vaticano afirmou que o Estado Islâmico quer "matar o Papa"), este casal albanês desvaloriza-os.

"A Albânia é um país de paz", reafirma Ertila. "Vai ser um dia de festa". "O Papa é uma pessoa importante, vai ser muito bem recebido. E para a Albânia é muito bom. O primeiro-ministro escreveu no Facebook que vão lá estar dois mil jornalistas de todo o mundo."

Já Alket é mais acutilante. "Em qualquer país do mundo, o Papa pode sofrer um atentado, não vejo por que é que a Albânia tem riscos acrescidos. Acho um absurdo… ninguém ia dizer 'vou matar naquele lugar', isso é coisa dos filmes".